ATLAS - People Like Us

A ATLAS tem como Missão intervir na comunidade, de modo a criar alavancas de Desenvolvimento Humano Integrado e Sustentável, através da promoção do voluntariado e da cooperação.

É já este sábado, dia 11 de Junho a partir das 17H00, na Barreira – Jardim do Visconde! O Arraial da ATLAS! O grande encontro da comunidade ATLAS e seus amigos!



POR PESSOAS COMO NÓS, JUNTA-TE À NOSSA CAUSA.



Inicialmente apenas reconhecida como doença respiratória aguda, a COVID-19 rapidamente provou ser muito mais ampla, afetando vários sistemas de órgãos. A COVID-19 causou inúmeras mortes, mas também deixou um enorme número de sobreviventes onde foi possível observar que a apresentação da doença não é apenas aguda. 

“Long Covid”

O termo “Long Covid” tem sido usado para descrever a persistência dos sintomas para além das 4 semanas nos pacientes diagnosticados com Sars-Cov-2.

Os principais sintomas que persistem são falta de ar, tosse, fadiga, dor torácica, síndromes ortostáticas, palpitações, entre outros.

Segundo a própria OMS, aproximadamente 10% de todos os pacientes com teste positivo para COVID-19 mantém sintomas por um período de 12 semanas ou mais.

Fatores de risco para o desenvolvimento de Long COVID 19 

Sintomas de maior gravidade de infeção SARS COVID-19, idade avançada e a presença de comorbilidades são fatores de risco para o desenvolvimento de Long Covid. 

Fadiga persistente

Um dos sintomas persistentes que mais ocorre após a COVID-19 é a fadiga. Um estudo britânico, que acompanhou durante 54 dias pacientes após a alta hospitalar de internamento por COVID-19, relevou que 69% dos pacientes mantinha queixas de fadiga. Tratam-se de números significativos que levam a uma diminuição significativa da produtividade e da qualidade de vida

Disautonomia

A disautonomia define-se como uma disfunção do sistema nervoso autonómico que provoca sintomas tais como a queda da tensão arterial com a mudança de posição e a taquicardia em ortostatismo. É uma das alterações de curso crónica mais frequentemente observada após a infeção por COVID-19, contudo o seu mecanismo ainda não se encontra definido.

Alterações psicológicas e cognitivas

O impacto sanitário, económico, político e social da pandemia da COVID-19 trouxe, por si só, uma parcela significativa de problemas do foro psicológico, tais como, depressão e ansiedade. Para além disso, vários estudos demonstram diminuição da capacidade cognitiva nos casos mais graves de infeção. 

Abordagem

Devido à ampla variedade de manifestações, o Long Covid deve ser abordado de forma holística e multidisciplinar, podendo ser necessário, para além da abordagem médica, o envolvimento de terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, enfermeiros, psicológicos, entre outros.

Pacientes com fadiga persistente, devem fazer exercício físico de baixa intensidade, como caminhadas, seguido de um aumento lento e gradual da intensidade, de forma a que retornem lentamente ao patamar anterior à doença ou ao melhor estado possível.

Nos pacientes com disautonomia, exercícios não ortostáticos, como ciclismo e natação, devem ser recomendados. É essencial garantir uma ingestão hídrica adequada para manutenção da volemia e a evicção de refeições muito copiosas. Devem evitar ficar de pé por longos períodos e evitar mudanças bruscas de posição (decúbito-ortostatismo). Meias compressivas e elevação de membros inferiores são boas soluções para melhorar o retorno venoso. Nos casos refratários poderá ser necessário recorrer a medidas farmacológicas. 

Pacientes com anosmia ou diminuição do olfato devem fazer treino olfativo, no qual experienciam diariamente odores puros diferentes, como é o caso do café e do limão, de modo a estimular o retorno da capacidade olfativa.

Em suma, o curso agudo da COVID-19 trouxe e ainda traz um enorme impacto tanto na população em geral como nos serviços de saúde. No entanto, a recuperação da fase aguda da doença nem sempre significa o fim das suas repercussões sendo por isso essencial acompanhar bem de perto todos estes doentes e reconhecer os sintomas do Long Covid. 

Autora:

Carolina Reis Penedo

Tem 27 anos. Fez o mestrado em Medicina na Universidade de Lisboa que terminou em 2020. Trabalhou 1 ano no Hospital de Leiria. Atualmente frequenta o internato médico da especialidade de Medicina Geral e Familiar na USF São Julião de Oeiras em Lisboa. É voluntária no projeto Velhos Amigos desde 2021.



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O passar dos anos muda-nos, não só a forma como pensamos e vemos o mundo, mas também fisicamente. Envelhecer é um privilégio, mas o objetivo é que seja com saúde. É inegável que o nosso corpo se altera, sendo necessário que nos adaptemos. As quedas são uma das principais causas de incapacidade e mortalidade nas idades mais avançadas, devido a fraturas, traumatismos cerebrais, feridas e lesões musculares. A sua prevenção é, por isso, essencial, incluindo-se num processo designado «Envelhecimento Ativo», que tem como objetivo melhorar a qualidade de vida das pessoas que envelhecem.

Então, porque são quedas mais frequentes? As pessoas mais velhas são mais frágeis. A sua constituição corporal altera-se (perda de massa muscular, alteração da postura) tal como os seus reflexos e sentidos (visão, audição). Estes fatores fazem que o próprio meio, se não adaptado, seja igualmente um fator de risco, como por exemplo, calçado não adequado e chão escorregadio.

Então, como prevenir? As medidas de prevenção são indicadas tanto para a pessoa como para o seu meio ambiente. Em termos pessoais, a pessoa deve manter-se ativa com exercícios de fortalecimento e flexibilidade simples e em ambiente seguro, como exemplificado no «Manual do Cuidador» redigido pela Rede Regional de Cuidados Continuados Integrados, que pode ser acedido via https://biblioteca.sns.gov.pt/wp-content/uploads/2017/06/Envelh_ativo_manual-cuidador-preven%C3%A7%C3%A3o-quedas.pdf. Deve igualmente ter atenção nas atividades do dia-a-dia, como na mudança de posição (que deve ser feita lentamente) e deve evitar atividades intensas e sob temperaturas extremas. No mesmo manual, também são dados exemplos sobre como o meio da pessoa pode ser adaptado, como o retirar de tapetes, manter a boa iluminação de todas as divisões da casa, ter corrimões e barras de apoio, evitar superfícies escorregadias e adaptar o calçado (utilizar calçado fechado e evitar andar só de meias).

Então, o que fazer em caso de queda? Se não conseguir levantar-se com segurança ou estiver com dores muito intensas deve pedir ajuda. Se tiver telefone portátil ou telemóvel deve tê-lo sempre perto de si, de maneira a pedir ajuda, contactando familiares, o 112, a SNS24 (808242424) ou vizinhos.

Autoras:

Gina Martins

Enfermeira de Família na USF S. Martinho de Pombal, Licenciatura em Enfermagem na Escola Superior de Enfermagem de Leiria.

Helena Barbosa

Médica Interna de Medicina Geral e Familiar na USF S. Martinho de Pombal, Mestrado Integrado na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.



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O mês de Maio aviva-nos a memória de que foi esse o mês do 1º sábado em que os primeiros Voluntários da ATLAS People like us saíram à rua para visitar Velhos Amigos em Pombal!
Em sacos vermelhos com letras brancas, colocaram as refeições quentes que os restaurantes solidários generosamente prepararam, envergaram t-shirt banca com letras vermelhas, um belo sorriso nos seus rostos e iniciaram uma jornada que hoje passados 4 anos só é diferente porque o grupo de voluntários, beneficiários e restaurantes aumentou!
Para ilustrar o que têm sido estes 4 anos, seguem-se testemunhos de voluntários do projecto Velhos Amigos, alguns que o são desde Maio de 2018 e de outros que se foram juntando, mesmo com a pandemia da Covid19.

“O nome assenta na perfeição, a ATLAS tem sido uma tremenda viagem, na qual tenho feito grandes velhos amigos. Uma lição (como há 4 anos atrás escrevi) e uma jornada de enriquecimento pessoal sem precedentes.
A minha vida, nestes últimos quatro anos, já foi várias coisas: estudei, trabalhei em diferentes sítios, vivi fora da cidade de Pombal, voltei, e fui para “fora” novamente. A ATLAS, manteve-se sempre. Ultrapassou a distância, afastou condicionantes que à partida poderiam ser impeditivas de continuar e acima de tudo continua a fazer sentido. Muita coisa mudou … mas voltar a casa continua, também, a ser o sábado das manhãs onde nos aguardam sorrisos de gratidão e outros que só querem conforto.
Com certeza, muito ainda vai mudar, mas o meu desejo por muitos anos, é de querer voltar onde sou feliz.”
Beatriz Cotrim

“Iniciei em junho de 2018. Na altura, queria aprender a falar e a relacionar-me com pessoas da terceira idade. Foi-me permitido dar miminhos a pessoas que estavam sós e isso é muito gratificante. E com isto tudo acho que consegui o que pretendia, um melhor relacionamento com os meus próprios pais. Obrigada Atlas.”
Celina Gameiro


“Quando decidi fazer voluntariado para a Atlas decidi-o de coração cheio porque sempre gostei de dar um pouco de mim aos outros sem disso esperar nada em troca, apenas um sorriso de quem estamos a ajudar”
Nicole Silva

“O ATLAS demonstrou-se como algo importantíssimo na minha vida, atribuindo-me um sentido que nem eu própria sabia que faltava. Ajudar os outros e ver o quão estes ficam agradecidos, aquece-me o coração e faz-me sentir que realmente estou a impactar a minha comunidade. Estes 3 anos na ATLAS foram muito gratificantes e transformadores.
Mariana Roque

“A comunidade vive de pessoas e todas têm de ser acarinhadas e cuidadas sem excepção. A Associação ATLAS não deixa ninguém de parte e eu, como voluntária, levo sempre essa missão comigo em todos os sábados em que atuo no âmbito do projecto Velhos Amigos em Pombal. Tem sido um orgulho fazer parte desta família.”
Daniela Gameiro

Por mim, gostaria de acrescentar que o voluntariado na ATLAS, também nos proporciona momentos de convívio, conhecemos outras pessoas, aproximamo-nos mais de outras já conhecidas.
Fazemos bem a Velhos Amigos e fazemos bem a nós voluntários.
Agradeço a todos os Voluntários pela dedicação e compromisso nestes primeiros quatro anos!

Autora
Ana Paula Dinis Cordeiro

Voluntária da ATLAS em Pombal



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Hoje em dia a vida desenrola-se a um ritmo frenético. Temos inúmeras rotinas que nos consomem grande parte do tempo útil de que dispomos. Na maior parte das vezes, na gestão desse tempo, acabamos por relegar para segundo plano aqueles que muito precisam de nós: os idosos.

Estudos levados a cabo pelos Investigadores do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS) comprovaram que 1 em cada 4 idosos se sente só. Alguns deles desenvolvem mesmo sintomatologia depressiva. Esta situação agravou-se com a pandemia e a necessidade de restringir ainda mais os contactos sociais. Os centros de dia suspenderam a sua actividade e a verdade é que para muitos dos nossos idosos este é o seu porto de abrigo. Representam ainda um bom suporte para as famílias evitando muitas vezes a institucionalização precoce dos idosos. Nestes locais, para além de terem vigilância e apoio para as suas actividades de vida diárias, têm também a possibilidade de encontrar os seus pares e reviver os tempos da sua idade mais jovem.

O processo de envelhecimento não é fácil. Os idosos têm de gerir inúmeras perdas. Talvez um dos maiores desafios que enfrentam seja o ajustarem-se às limitações que a idade lhes traz, tanto em termos de autonomia física como intelectual; a perda de capacidade para se gerirem, para serem auto-suficientes, o dependerem de terceiros. Sentirem que o poder de decisão sobre a sua vida lhes é retirado.

Talvez uma das melhores formas de colmatar esta situação e prevenir a solidão nos idosos seja o permitir-lhes que partilhem as suas memórias, fazer com que se sintam úteis, valorizar a sua opinião. O voluntariado assume um papel muito importante neste aspeto, uma vez que os voluntários que prestam apoio aos idosos estão disponíveis para eles, para realmente os ouvir e lhes dar atenção, para além de identificarem precocemente quadros de agravamento da solidão ou mesmo de instalação de sintomatologia depressiva, articulando cuidados com outras equipas sempre que necessário.

Autora
Isabel Amaro

Isabel Amaro tem uma licenciatura em enfermagem e uma pós-graduação em geriatria. Exerceu durante 10 anos em oncologia e neste momento trabalha na área da saúde mental.



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O aumento da longevidade representa uma das maiores marcas do progresso científico e da melhoria das condições de saúde dos últimos anos. Contudo, sabe-se, hoje, que o envelhecimento conduz a um declínio geral nas funções vitais do indivíduo que, consoante o grau de perda, pode limitá-lo na realização autónoma de atividades de vida diária.

Particularmente no que respeita à alimentação, decorrem do envelhecimento inúmeras alterações estruturais e sensoriomotoras que afetam a segurança e a eficácia da deglutição (= ato de engolir), designando-se por presbifagia. Esta, em concomitância com uma ou mais doenças, pode conduzir a sintomas mais graves que dificultem ou impossibilitem a passagem segura do alimento até ao esófago, passando a designar-se disfagia orofaríngea. Entre as principais consequências da disfagia orofaríngea encontram-se a desidratação, a perda de peso, o impacto psicossocial negativo, a pneumonia de aspiração e a asfixia.

O ser humano deglute aproximadamente 600 vezes por dia e, em condições normais, a deglutição é um mecanismo que exige pouco esforço, por isso, a complexidade do seu mecanismo pode passar despercebida. Contudo, à medida que envelhecemos, este processo torna-se mais lento e menos eficaz, devido à perda de dentes, à diminuição da força muscular da língua, à perda de sensibilidade da boca e faringe e à diminuição da velocidade de resposta dos músculos.

Assim, com o passar dos anos e o acumular das alterações, cada pessoa vai fazendo, quase sem se aperceber, as suas próprias adaptações, de forma a tornar a alimentação mais fácil e segura (p.e. cozinhando melhor determinados alimentos e evitando outros).

Alguns cuidados gerais que devemos ter em consideração são:

– evitar comer rápido;

– alimentar-se com uma postura correta, mantendo o tronco a 90°;

– optar por alimentos mais macios (bem cozinhados), ligeiramente húmidos e de pequenas dimensões;

– e alternar consistências (entre líquida e sólida), de forma a limpar possíveis resíduos de alimento que fiquem acumulados na orofaringe depois de engolir.

Por outro lado, assinalam-se alguns alimentos com os quais devemos ter especial cuidado:

– alimentos com duas consistências (líquida e sólida), como canja, citrinos e outros frutos sumarentos;

– alimentos muito secos ou duros (p.e. frutos secos);

– alimentos viscosos ou aderentes (p.e. puré de batata);

– alimentos com casca aderente (p.e. leguminosas);

– e alimentos em pedaços de grandes dimensões.

Estes alimentos necessitam de melhor capacidade de resposta sensorial e motora para serem deglutidos de forma segura e, por isso, podem colocar a pessoa idosa em risco de engasgamento.

Alguns sinais de alerta para o risco de engasgamento ou asfixia são:

– tosse;

– voz alterada após engolir os alimentos;

– dificuldade em respirar;

– diminuição da SpO2;

– e sinais de desconforto ou stress durante a alimentação.

Assim, apesar de ser possível envelhecer sem experimentar dificuldades graves na deglutição, devemos estar atentos aos sinais de alerta referidos, que nos indicam a necessidade de avaliação médica e, possivelmente, de reabilitação desta função vital.

Autora
Joana santos

Terapeuta da Fala, com mestrado na mesma área e especializações em perturbações neurológicas no adulto, ao nível da comunicação e da deglutição. Atualmente, exerce a sua profissão no Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital da Universidade de Coimbra e é estudante do curso de doutoramento em Gerontologia e Geriatria da Universidade de Aveiro e do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto.



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Este não é um tempo amistoso para os nossos Velhos Amigos… cada um lidava com as suas condições de fragilidade quando veio outra privação (no relacionamento com vizinhos, amigos e familiares) e agora a ansiedade acrescida pela guerra: Vai chegar a outros países? Os meus filhos emigrados vão ficar bem? Como vou conseguir pagar as minhas despesas se tudo ficar mais caro?

Como diz o ditado popular: Não mata, mas mói! E estas preocupações vão ganhando expressão no corpo – menos apetite; alterações no sono (pesadelos; dificuldade em adormecer; acordar muito cedo); dores de cabeça; sensação de falta de energia – e influenciam o “estado de ânimo” o que, em alguns idosos, se repercute num agravar de estados depressivos ou de ansiedade.

Os Velhos Amigos que passam os dias mais sozinhos são aqueles a quem podemos prestar mais atenção. Se estiverem disponíveis para conversar, em diálogo, podemos compreender: Qual a perceção do idoso acerca do que ouve e vê na televisão? Sente-se seguro na sua casa e no seu bairro? Sente-se mais preocupado ou mais triste do que anteriormente? Tem necessidade de conversar sobre alguma notícia ou acontecimento?

Podemos esclarecer algumas ideias, transmitir sensação de segurança e dar algumas dicas para aumentar o seu bem-estar: não ver noticiários todo o dia; assistir a programas de televisão ou rádio que estimulem o bom humor (comédias; música); fazer atividades que lhe deem gosto, na medida das suas possibilidades (ver uma revista, pintar, ler, fazer palavras cruzadas, telefonar aos amigos); na medida da sua condição física, criar movimento: caminhar, estar sentado e movimentar os braços e as pernas, espreguiçar-se, respirar fundo.

Fazer exercício físico ou fazer algo que nos é prazeroso vai aumentar a produção de hormonas que estimulam a sensação de bem-estar. Parecem “pequenos nadas”, mas cada um daqueles comportamentos contribui para ajudar corpo e mente.

Autor
Sofia Carruço

Psicóloga e Voluntária na Atlas – People Like Us, em Leiria



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De noite, o zum-zum da máquina de costura, interrompia as vozes dos desenhos animados. A mãe costurava os nossos vestidos, os meus e os da minha irmã, que fazia com os moldes da Burda, para levarmos no dia das fotografias da escola. Foi assim até aos dez anos, altura em que eu já sabia dar alguns pontinhos.

Com o tempo, aprendi que esse tipo de castigo, a obrigação das meninas saberem fazer estas actividades (nasci em 1969, filha de pais portugueses emigrados no Canadá), dava jeito.

Com estes saberes, vestidos para as bonecas, depois, saias e blusas para mim, aos 15, já residente em Portugal, fazia blusas para todas as minhas amigas.

A moda ditava que as roupas feitas em casa eram ridículas, por isso, segui contra a maré.

Na escola, aprendi a lidar com contas correntes e balanços, mas nos intervalos, desenhava croquis de vestidos de noite. E vestia roupas estranhas, que fazia com a ajuda da mãe, e com a minha persistência. Ainda assim, escolhi os números. Eram mais seguros.

Trabalhei vinte e quatro anos numa empresa, com a escolha que fizera, números. No início, chegava a casa, tricotava camisolas enquanto via televisão. O pai, que vinha de uma família de pescadores da Foz do Arelho, e que desde muito cedo tecia redes com laçadas, um dia olhou para mim e disse:

– “sei fazer isso!”.

Achei graça. Ele pegou nas agulhas e tricotou duas carreiras, na maior perfeição.

Achamos que ultrapassamos os nossos pais, que as coisas que sabem são antigas tradições. Engane-se quem assim pensa. São saberes que passam de geração em geração. Achava bonito, gostava de saber fazer estas coisas, mas, até para eles, a mãe e o pai, trabalhar num escritório é que era trabalho para uma senhora.

E um dia, já o pai tinha partido, e eu já era mãe de filho e filha, fui despedida do meu emprego de senhora. De todos os pedidos de emprego que fiz, mais de mil, nem uma resposta. Vinte e quatro anos de experiência não serviam de nada.

Então, aconteceu um acidente. Num dia de vento perdi o chapéu da minha bebé, e, zangada, decidi fazer-lhe um. Depois, fiz outro para mim, coloquei uma fotografia no Facebook e vendi-o.

Isto foi há dez anos. Nestes dez anos, foi o conhecimento que a minha mãe me transmitiu que me transformou na que sempre fui. Uma mulher que constrói o futuro com as mãos. Que ouve o zum-zum da máquina de costura todo o dia. Faz ainda os seus próprios vestidos, e os vestidos de muitas outras pessoas. Não vestidos e roupas que se vendem por tuta e meia. Vestidos que são usados para manter pela vida a fora. Que contém as histórias da minha infância e são feitos com dias longos de alguém que acredita no que os pais ensinam, seja o que for, fará para sempre parte de quem és.

Construí o meu futuro de tradições do passado, e, no presente, muitas são as vezes que me sento com a minha filha de dez anos no sofá a ver televisão e a descansar, mas ouço sempre um zum-zum de uma máquina de costura. Vem da minha própria máquina, a que eu comprei às prestações mal recebi o meu primeiro salário. Não sou só eu que fiquei com esta música no ouvido, mas também o meu filho, de dezassete anos, que a usa para os seus projectos de arte.

Hoje quase com 53 anos sei, que tal como uma rede, somos feitos de todas estas ligações que nos deixaram. As nossas raízes. Os saberes da humanidade. De geração em geração. Aprendemos coisas novas, que construímos sobre o que alguém fez antes de nós.

E, que não há futuro sem ter havido antes, uma laçada, que alguém deu primeiro.


Autora
Zélia Évora

Criativa



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O Atlas está de parabéns! Sinto-me honrada pelo convite para relatar os primeiros passos do Atlas há 14 anos. É com admiração que olho para a sua história.

Como e por que nasceu o Atlas? Dizem que “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” Para mim, o sonho começou quando acordei da anestesia. Foi num hospital, no recobro de uma cirurgia, que a minha amiga “Rusa” (Maria do Rosário) me falou da sua ideia. Depois de ter trabalhado em cooperação para o desenvolvimento, em Lisboa, sentia que em Coimbra faltava “animação”. A ideia central: promover a realização do potencial humano, especialmente onde as circunstâncias fossem adversas. A ideia germinou em mim, acabando por encontrar eco num certo vazio que eu não via preenchido pelos meus estudos na universidade. Decidi abraçar esta aventura.

A primeira sede no Atlas foi na Solum. Com móveis doados e decoração verde-alface e vermelha, abrimos as portas a Coimbra e ao mundo. Os primeiros passos eram claros: formar equipa, redigir os estatutos e obter a designação de Organização Não Governamental, estabelecer contactos na área, delinear as nossas primeiras aventuras e escrever candidaturas. Os eixos de acção mantêm-se fortes desde o início: a cooperação para o desenvolvimento, a educação para o desenvolvimento (os objetivos do Milénio), e o desenvolvimento local. Muitos entusiastas juntaram-se e contribuíram das mais variadas formas. O Filipe Bento emprestou o seu talento de designer para criar o sorriso do nosso logotipo. Os MotoXplorers fizeram raids de mota solidários. A Helena Vasconcelos visitou o orfanato angolano onde muitas crianças foram apadrinhadas e conquistaram corações além-mar. A Jovana, especialista em relações internacionais, promoveu a construção da rede de contatos. E tantos mais foram os contributos que se multiplicaram e construíram o Atlas. O Atlas é movido por pessoas extremamente ocupadas mas, como disse a Cândida numa das primeiras assembleias gerais (parafraseando a citação do seu avô): “se queres algo bem feito, fá-lo tu ou entrega-lo a alguém com muito que fazer”.

E, claro, não podíamos deixar de ir para fora cá dentro. Queríamos criar laços na cidade natal do Atlas. Os primeiros contactos com a vereadora da Câmara Municipal de Coimbra foram produtivos – aprendemos que, na Alta de Coimbra, os apoios sociais não tinham alcance para as necessidades de muitas pessoas, especialmente ao fim de semana. Não foi difícil encontrar restaurantes que nos apoiassem e ainda mais expedito foi o crescimento do corpo de voluntários. As amizades deste projeto, inicialmente intitulado “Alta de Coimbra” expandiram-se e fortaleceram-se, chegando a outras cidades no que hoje é o projeto “Velhos Amigos”.

Motivos profissionais levaram-me a outras paragens mas o Atlas continuou a crescer sobre outra direção. Agora na sua adolescência, está mais enérgico do que nunca e à minha memória da sua infância faltam os detalhes. Nítida permanece a noção de determinação e compromisso com que os projetos continuam e a força dos laços duradouros e sorrisos que criam.

O Atlas está de parabéns e, com ele, todos os idealistas e incansáveis heróis do quotidiano que dão a sua vontade, tempo e energia a tanta gente. Com um profundo sentimento de gratidão, desejo uma longa vida ao Atlas, muita força a todos, que os apoios e financiamento continuem a existir, e, sobretudo, que disfrutemos de cada momento!

Autora
Ana Pina

Vogal e sócia co-fundadora do Atlas. Nascida no Porto há 35 anos, estudou e viveu em Coimbra e em Lisboa. Trabalha atualmente em Freiburg como dermatopatologista.



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Comunicar com “a pessoa idosa” não é muito diferente de comunicar com “a pessoa jovem”.

Apesar de ser inegável que, com o avançar da idade, ocorrem alterações ao nível sensorial e motor que podem comprometer a eficácia da comunicação, a população idosa está longe de ser homogénea.

De entre as alterações mais frequentes causadas pelo envelhecimento, podem assinalar-se a diminuição da acuidade auditiva e visual, a diminuição da força muscular, as alterações da função respiratória, a perda de dentes e as alterações na memória e na atenção, como potenciais fatores de comprometimento da eficácia da comunicação. Contudo, cada pessoa envelhece de maneira singular e o pior erro é generalizar.

Assim, assumir que comunicar com uma pessoa idosa será, à partida, mais difícil, baseando-se apenas no fator idade, constitui um preconceito, que é importante desconstruir. A este tipo de preconceito, baseado na idade, chamamos idadismo (=ageism,na língua inglesa; para saber mais: stopidadismo.pt) e está mais presente na nossa cultura do que gostaríamos.

De facto, a comunicação, em qualquer que seja a idade, é um processo complexo, que exige um verdadeiro envolvimento entre os interlocutores.

É comum pensar-se que o aspeto mais importante da comunicação é a mensagem verbal (as palavras). Contudo, é seguro dizer que a essência da comunicação é revelada pela componente não-verbal da linguagem. Isto é, a mensagem que transmitimos é mais influenciada pela nossa postura corporal, pelos gestos, pelo contacto visual, ou pela sua ausência, pelo tom de voz que usamos e pela disponibilidade que demonstramos, do que pelas palavras que escolhemos.

Outra premissa comum e não menos errada é a de que comunicar significa falar. Em todo o processo de comunicação, escutar pode ser tão ou mais importante do que falar. Neste sentido, em muitas situações, comunicar eficazmente pode passar, sobretudo, por “estar presente” e escutar ativamente.

Assim, parece que a chave para uma comunicação eficaz reside, principalmente, na relação que se estabelece e na empatia que se tem para com o outro. A mesma empatia que permite estar atento a si e ao outro, às necessidades de ambos e às suas capacidades. Esta comunicação “centrada na pessoa” será tão mais eficaz, quanto maior a entrega e o envolvimento dos interlocutores.

No decorrer dos nossos dias, nem sempre é fácil dedicar todo este empenho a cada oportunidade comunicativa. Contudo, vale a pena tentar!

Autora
Joana Santos

Terapeuta da Fala, com mestrado na mesma área e especializações em perturbações neurológicas no adulto, ao nível da comunicação e da deglutição. Atualmente, exerce a sua profissão no Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital da Universidade de Coimbra e é estudante do curso de doutoramento em Gerontologia e Geriatria da Universidade de Aveiro e do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto.



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