Cidadania Ativa

Projetos de Vida Sénior

A reforma é o merecido descanso de uma vida de trabalho, de correrias, de preocupações.


Há aquele alívio de que vamos finalmente descansar. Assim sendo, parece ser realmente o ideal, talvez durante uns tempos.
No entanto, quando a inércia toma conta de nós, tudo começa a ficar mais complicado. Não há rotinas, não há horários, não há a conversa habitual com as amigas e tudo se torna mais monótono. Há que arranjar algo que nos ocupe de novo, mas agora sem pressas nem compromissos rigorosos.
Depois de algumas pesquisas, encontrei a Projetos de Vida Sénior, fui ver do que se tratava, gostei e inscrevi-me.
Tudo mudou! Passou a haver de novo tempo para tudo, senti-me de novo ativa. Convivemos, aprendemos, fazemos exercício físico e mental, fazemos visitas temáticas e passeios pelo país e até pelo estrangeiro. Fiz novos amigos e reencontrei outros com quem há muito não convivia. De realçar ainda os extraordinários professores que dão o seu tempo e partilham o seu saber voluntariamente, dando-nos também muito da sua simpatia e amizade.

Projectos de Vida Sénior é uma Universidade Sénior da Marinha Grande, um projecto de aprendizagem informal dirigido a maiores de 50 anos. Saibe mais aqui.


A “Universidade Sénior” foi verdadeiramente algo de bom que me aconteceu. Foram três anos maravilhosos que me enriqueceram a todos os níveis.


Digo três anos porque ganhei, finalmente, o estatuto de avó! Esta era a etapa que faltava na minha vida e eu queria desfruta-la ao máximo.
Ponderei e evidentemente optei por ajudar a criar o meu neto. Interrompi então a minha passagem pela a Universidade, convicta de que iria voltar. Não foi possível, até à data, porque voltei, de novo, a ser avó.
Mantenho, no entanto, a esperança de voltar porque não há prazo para aprender e para ser feliz.


Autora
Cidália Carvalheiro
Voluntária do Projeto Velhos Amigos na Marinha Grande. Natural de Viseu, tem 71 anos, é casada há 50 anos, tem dois filhos e dois netos.

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Compassos da vida.

Iniciei a escrita deste texto a pensar no título de uma canção do extraordinário Sérgio Godinho: “Mudemos de assunto”.


Por mais que tente “mudar de assunto”, tenho ido parar ao mesmo: a minha perceção de que, neste momento social, as pessoas em idade ativa parecem estar divididas em dois compassos. Por um lado, trabalhadores que estão, de momento, desempregados, em espera da desejada “retoma” e a refazerem expetativas de forma a se ajustarem às oportunidades que surjam. Por outro lado, os trabalhadores no ativo que, independentemente do setor de atividade, estão a viver num ritmo frenético e avassalador.


Curiosamente, a média de idades dos voluntários da ATLAS é de 41 anos, a maioria estará a trabalhar. Há, certamente, episódios de vida comuns entre nós: mais um turno que é preciso fazer na fábrica num pico de produção; horas extra no escritório para concluir um relatório; prolongamento do horário para apoio logístico a tantos pedidos de clientes; videochamadas sem fim quando o trabalho invadiu a nossa casa, etc..
Trabalhar produtivamente é salutar e esperado nesta etapa do ciclo de vida (que se prolonga até cerca dos 60 anos). A par da produção e criatividade na atividade profissional surge a necessidade de criar e cuidar da família.


O meu ruminar de assunto tem a ver com isto mesmo: neste mundo materialista, dos números e das metas, a balança sai muitas vezes desequilibrada, com o aspeto profissional mais sorvedouro. A idade dos grandes desafios profissionais é também a dos grandes desafios da educação dos filhos e das fragilidades dos pais e a vida é, tantas vezes, gerida ao minuto, num correr de dias e voo de meses. Os filhos crescem, os pais envelhecem e precisamos ter tempo só para ser, só para estar.

“(…) precisamos ter tempo só para ser, só para estar.”

“Mas isto é um canto
E não um lamento
Já disse o que sinto
Agora façamos o ponto
E mudemos de assunto
(…)”


Conseguindo satisfação neste equilíbrio entre trabalho e família, o sentido do cuidar pode até ir além do contexto familiar e abarcar a comunidade onde se está inserido, a preocupação com os outros, o cuidar solidário (que também é comum entre nós, voluntários).
Neste mundo incerto, complexo, ambíguo, imprevisível, precisamos de descobrir quais as ligações (à natureza, à família, aos amigos, ao trabalho, à comunidade, etc.) que nos dão segurança, confiança e que têm significado para nós. Essas ligações são as que moderam os desequilíbrios e restituem harmonia. É um exercício de reflexão, cuja necessidade tantas vezes sentimos, mas que os grandes desafios, que acima referi, vão adiando… Então, desejo-nos tempo para que “façamos o ponto” da vida, de vez em quando, e para que possamos vivenciar essas ligações.


Autora
Sofia Carruço
Psicóloga e Voluntária na Atlas – People Like Us, em Leiria

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A senhora que folheava revistas de moda

Uma senhora, de idade avançada, veterana na vida, ocupava uma cadeira num recanto de um cabeleireiro. Parecia esquecida como um candeeiro baço ou como a própria cadeira que ocupava, como se não tivesse vida. E ela que tinha tanta! Ao seu lado, no chão, repousava a sua bengala, a sua perna mais nova, mais firme, que lhe permitia o apoio nos movimentos.

O seu cabelo de neve escorregava por baixo de um barrete preto, que tapava o frio e os fios finos. Também tapava a vaidade que, a partir de certa idade, passa a ser uma raridade. A sua cara riscada de linhas exibia uma cor clara, porém manchada aqui e acolá. A sua silhueta pesava para a sua idade, por isso o recurso à bengala e à cadeira. Os seus olhos, tapados por umas cortinas espessas espelhavam doçura e apenas deitavam brilho.

Depois de pegar na sua bengala e de a encostar junto a si, fixou os olhos numa revista colorida. Quis entreter-se. Queria ver que fotografias mostrava do mundo. Pegou nela, com a sua mão já um pouco trémula, e começou a fazer passar as páginas pelos dedos. As caras eram todas lisas e cobertas de cores diversas para realçar os olhos e os lábios. Havia cabelos que deslizavam, outros que saltitavam e ainda outros armados em trabalhos elaborados.

As roupas eram vistosas e coloridas e deixavam adivinhar silhuetas todas magras, firmes e jovens.

Folheou a revista até ao fim e depois apenas disse:

– “Isto é só para os novos!”

E era. Também a revista parecia esquecer-se dela com aquela idolatria toda ao corpo jovem, modelado. E as outras revistas pareciam ser todas iguais. Não havia nenhuma que apresentasse silhuetas mais frágeis e mais volumosas. Não se vislumbrava qualquer sinal de cabelos brancos e finos. Nenhuma procurava embelezar uma cara riscada de rugas. Nenhuma sequer procuraria retratar um sorriso verdadeiro, daqueles que só vêm das pessoas que só se riem quando querem.

Depois de proclamar a sua crítica, atirou a revista para dentro do cesto (de onde tinha saído) e continuou na sua cadeira. Sentada. À espera.

Ninguém ligou. Ninguém ouviu. Continuou tudo na mesma. O secador continuou a alisar cabelos com a ajuda das escovas e as conversas acompanhavam a imagem que ia aparecendo no espelho.


Autora
Celina da Costa Gameiro
Residente em S. Simão de Litém, concelho de Pombal. Licenciada em Línguas e Literaturas modernas, variante de estudos franceses e ingleses, pela FLUC. Ouvinte e observadora. Voluntária na Atlas, no projeto Velhos Amigos.

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Voluntariado, um altruísmo egoísta

O voluntariado é um exercício de cidadania, de solidariedade e contribui para a realização pessoal de quem o pratica. Definido como “um ato livre, gratuito e desinteressado, oferecido às pessoas, às organizações, à comunidade ou à sociedade” (Paré e Wavroch, 2002:11), o reconhecimento da importância da prática tem vindo crescer, note-se o estabelecimento do ano internacional do voluntariado (2001), o assinalar do dia internacional dos voluntários (05 de dezembro), bem como a criação de programas de voluntariado.

A Organização das Nações Unidas realça a importância do voluntariado pelo seu papel no “reforço da coesão social e económica, gerando capital social, promovendo a cidadania ativa, a solidariedade e uma forma de cultura que põe as pessoas em primeiro lugar”.

O voluntariado desempenha uma função muito importante no apoio ao estado, e às organizações do terceiro sector, que não conseguem dar resposta a todas as situações. É uma forma de participar na transformação social e um meio de participação cívica dos cidadãos, onde o indivíduo procura dar um contributo para tornar a sociedade melhor, mais inclusiva, mais igualitária, respeitando e agindo de acordo com os direitos de todos os seres. É uma prática que deve ser incentivada e impulsionada (tendo aqui a educação um papel fundamental) para que se torna parte integrante da cultura.

“Dar e receber
devia ser a nossa forma de viver”

  • António Variações

Faço voluntariado há vários anos, e recomendo! Faço-o com pessoas, faço-o com animais, faço-o por mim. Na minha opinião o voluntariado assenta na premissa dar e receber, tal como diz a canção do António Variações “dar e receber devia ser a nossa forma de viver”. Dou um pouco do meu tempo e da minha atenção e em troca recebo sorrisos e estima.

Voluntária do Projeto Velhos Amigos da ATLAS, na Marinha Grande.

As motivações para o voluntariado são também alvo de um crescente interesse por parte da comunidade académica que tem vindo a desenvolver vários estudos para compreender os motivos que levam os indivíduos a desenvolverem a atividade de voluntariado, e a permanecer na prática por longos períodos; bem como estudos de caraterização da prática do voluntariado (em Portugal – Delicado, 2002; Amaro et al, 2012; Serapioni, Ferreira e Lima, 2013). Os estudos sobre a motivação para o voluntariado são efetuados com base na aplicação de vários instrumentos, nomeadamente o inventário de funções do voluntario que identifica várias categorias: as pessoas tornam-se voluntárias para expressar os valores (altruísmo), para desenvolver habilidades /aprendizagem, por motivos relacionados a carreira (ganhar experiência profissional), para proteger o próprio self de sentimentos de culpa, para crescimento/desenvolvimento pessoal, pela possibilidade de socializar com outras pessoas.

Vários autores (Delicado, 2002; Cnaan e Goldberg-Glen, 1991) consideram que as motivações para o voluntariado tanto podem ser de carácter altruísta como de carácter egoísta, uma vez que a sua pratica contribui, pelas experiências vividas e partilhadas, para o crescimento pessoal. Importa também referir que diversos estudos realizados juntos de voluntários apontam para a perceção de benefícios como uma melhor saúde física e mental, bem como níveis elevados de bem-estar subjetivo.

Sê tambem voluntários na ATLAS – People Like Us. Sabe mais clicando aqui.

Autora
Cláudia Marinho
Socióloga, Investigadora Social em temas como migrações, juventude, delinquência juvenil. Voluntária na ATLAS, no Projeto Velhos Amigos.

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Uma leitura, uma partilha de opinião.

“Uma leitura, uma partilha de opinião” é um espaço de partilha entre voluntários e voluntárias da ATLAS. Aqui descobrimos o que andam a ler, quais as suas reflexões e sentimentos. Estão todos e todas convidadas a deixar comentários ao artigo no fim desta página!


A Sublime Arte de Envelhecer de Anselm Grun

Comentário de
Rui Bingre
Voluntário do Projeto Velhos Amigos em Leiria

Anselm Grun é monge beneditino, responsável financeiro da Abadia de Munsterschwarzach na Alemanha e, segundo a Wikipédia, “autor de aproximadamente 300 livros com foco na espiritualidade. Dos seus livros, mais de 15 milhões de cópias foram vendidas em 30 idiomas” (!) e tinha 64 anos quando escreveu este livro. Estes pormenores biográficos são importantes para uma melhor compreensão do livro.

Logo nas primeiras páginas duas frases lapidares que me atrevo a classificar de indiscutíveis (“A nossa vida só é bem sucedida se aceitarmos o processo de envelhecimento”) e (“O Homem envelhece por si só. Mas o facto de envelhecer com sucesso depende apenas dele próprio”), prenderam-me a atenção suscitando-me a pergunta “o que devo, então, fazer para envelhecer com sucesso?”. Note-se, pela biografia do autor do livro, que fiz esta pergunta (via leitura do livro) a um homem com uma extraordinária envergadura intelectual e espiritual.

As respostas que encontrei são sensatas (“a vida não se constrói sozinha”), motivadoras (“sábio é aquele que gosta de si próprio e faz com que gostem de si”) e muitas outras de igual mérito. Acresce que o tom geral do livro não é, felizmente, de “guru da felicidade”, longe disso! A proposta de Anselm Grun é a da vivência da velhice como uma caminhada tranquila mas exigente na “capacidade de aceitação da própria existência” (reconciliação com o passado, aceitar os seus próprios limites, aprender a viver com a solidão) da “renúncia” (renunciar aos bens materiais, ao poder, ao ego, etc.) e no “cultivo das virtudes da velhice” (serenidade, paciência, liberdade, gratidão, amor, etc.). É um caminho difícil (o próprio Grun diz-nos que nos seus 64 anos ainda não se sente capaz de os cumprir integralmente) e que, na minha opinião, talvez esteja facilitado para quem viva numa profunda envolvência do pensamento cristão, sem prejuízo, no entanto, de ser igualmente exequível fora desse contexto religioso. O livro provoca e merece uma reflexão cuidada. Mas imaginem, caros leitores deste artigo, que a minha próxima leitura, já planeada antes de ler Anselm Grun, tem como título “Que se Lixem os 70, Guia para (os) Viver Bem” do distinto médico Muir Gray, editora IN. Parto para essa leitura como parti para a anterior: de espírito aberto. Espero um choque de diferenças entre ambas as visões da velhice. Não sei qual das duas me influenciará mais, mas provavelmente ficarei a meio do caminho, não por virtude minha mas porque nos meus 67 anos ainda não me sinto capaz de cumprir a proposta de Grun e, provavelmente, não terei a disciplina e a vontade necessárias para ser o jovem de barba branca e saltitante da capa do livro de Gray. Fica-me a esperança que este gosto de continuar a buscar respostas seja uma pequena alínea de uma sublime arte de envelhecer.

A Sublime Arte de Envelhecer
Anselm Grun
Paulinas Editora, 2011

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O mundo precisa de nós!

Olá, sou a Nicole Bohórquez tenho 20 anos e sou uma estudante Universitária do Equador. Há 3 anos lancei-me numa aventura para um dos melhores países do Mundo, Portugal.

Quando temos 17 anos ainda não sabemos muito bem o que queremos ser na vida, nem o que queremos estudar e muito menos onde; mas uma coisa é verdade, queremos sempre uma mudança, queremos trocar tudo aquilo que não gostávamos por coisas que nos apaixonam.

O Equador é um país maravilhoso: cheio de cultura, importantes patrimónios históricos e uma flora e fauna como nenhuma outra região no mundo; histórias que intrigam aos mais exigentes visitantes são contadas diariamente nos seus grandes centros coloniais. Quito, a cidade que me viu crescer e a antiga capital do império Inca como, alguns historiadores afirmam, foi contruída na metade do mundo sobre as montanhas da cordilheira dos Andes a mais de 2.850 metros sobre o nível do mar, e foi o lugar onde toda a minha família esperava saber qual ia ser o próximo episodio da minha vida. 

Quito, capital do Equador.

Mas para uma rapariga como eu, que estava à procura de novos desafios e expandir os seus conhecimentos mais além das fronteiras ,não me bastava ficar naquele belo lugar. Eu precisava de mais, precisava mesmo de levar a minha mala cheia de solidariedade a um país tão maravilhoso como o meu. A dúvida invadia todo o meu corpo, despertando o desejo de saber qual seria o meu destino.

Portugal é o País dos castelos medievais, aldeias de xisto, cidades cativantes e praias douradas, uma região que entrega ao mundo os mais sublimes pôr-do-sol que alguma vez já vi.  Desde a cidade dos Miradouros de Lisboa até à apaixonante cidade de Porto. O terceiro país mais seguro do mundo, uma região muito tranquila para se viver, os cidadãos mais antigos dizem que Portugal é o “cantinho do céu”; e como não acreditar nisto se cada dia da minha vida em Portugal tem sido uma bênção de Deus.

Eu sou das pessoas que acreditam em que a vida é uma aventura, e que temos de vivê-la como se cada dia fosse o último, sou uma rapariga que tem uma grande ligação com a sua família, mas o meu compromisso com o mundo vai mais longe. Nunca me vou esquecer da primeira vez que tive de me despedir da minha família no aeroporto Internacional de Quito, nunca antes tinha sentido tantas emoções ao mesmo tempo, era uma batalha intensa entre o entusiasmo de conhecer o meu destino e a tristeza de deixar para atrás os seres que mais amo no planeta.

 Só a partir daí reparas que tudo o que tinhas antes ou o que tinhas construído em toda a tua vida afastava-se pouco a pouco através da janela dum avião, mas depois de um suspiro começas a pensar em que tudo vai correr bem, e em que serás o orgulho de uma família inteira que sempre vai esperar o teu regresso.

Portugal recebeu-me de braços abertos, o clima era perfeito, o meu café era perfeito, Leiria era tão linda, tudo era espetacular. Não podia esperar para chegar ao meu quarto deixar as minhas coisas e sair para conhecer a nova cidade onde ia viver nos próximos 3 anos.

No início, o meu nível de português era o equivalente a um miúdo de 6 anos e, apesar disso, graças à boa vontade para ajudar- característica do povo português-, conseguia comunicar com algumas dificuldades, mas sempre transmitindo o meu objetivo.

Adorei imenso a gastronomia de Portugal!,- o bacalhau com natas, o bacalhau a Brás, o bacalhau espiritual-,… meu deus, nunca pensei que o bacalhau podia ser cozinhado de tantas maneiras e oxalá algum dia consiga experimentar todos os que existem.

Para quem vem da América Latina, continente que não testemunhou a época Medieval, a arquitetura das cidades europeias é uma verdadeira obra de arte e o ponto mais expressivo da bela cidade de Leiria sem dúvida é o seu castelo, de onde os visitantes podem apreciar as extensões territoriais de uma das mais peculiares cidades europeias.

Será que valia a pena ter deixado tudo para trás?

Os meus primeiros meses não podiam ter sido melhores, foi uma das melhores épocas que já passei, mas chegou um ponto que comecei a questionar as minhas próprias decisões, era este o caminho correto? era esta a vida que eu queria? Será que valia a pena ter deixado tudo para trás e começar do zero? tantas perguntas sem uma resposta clara nublavam na minha mente e afogavam as minhas ânsias de mover adiante.

Sim, é certo que vir para Portugal foi a melhor decisão que podia ter tomado, mas deixar o meu país foi o mais difícil de assimilar. Neste ponto da minha vida, onde quase nada fazia sentido, ganhei uma família, da qual vou estar sempre eternamente agradecida, pois com eles descobri a importância de valorizar a vida de uma pessoa tanto como a de milhões: Atlas, uma organização Portuguesa de Voluntariado, um raio de esperança no mundo e uma bênção para aqueles que mais precisam da colaboração da sociedade.

Graças a eles, reforcei o meu propósito de vida: “Fazer o bem sem olhar para quem”, e aos que chegaram até este ponto da história, quero dizer-vos que o mundo precisa de nós, não importa onde estejamos. Podemos fazer tanto só com o nosso sorriso e a vontade de fazer mais amena a vida daqueles que já desistiram de ser felizes.

Bootcamp de voluntários 2019, no qual a Nicole esteve presente.

Quero culminar com uma frase que toca a minha alma sempre que a oiço, e que sei que vai servir como motivo para te fazer sair da tua cadeira a abraçar todos aqueles que precisem do nosso carinho.   

Enquanto houver vida, haverá esperança!


Autora
Dayana Nicole Bohórquez Huertas
Estudante e Voluntária no Projeto Velhos Amigos

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Uma leitura, uma partilha de opinião.

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Vamos ser amigos para sempre

Comentário de
Irene Primitivo
Voluntária do Projeto Velhos Amigos em Leiria

Vamos ter amigos para sempre. Quem de nós não se revê a ter escrito isto numa composição da escola sobre um amigo especial? Ou, com sorte, a ler um texto destes no caderno do filho, quando ele era mais jovem, criança ainda?

É assim a amizade, “ a única relação afetiva incompatível com a ambivalência”. Quem no-lo diz é Francesco Alberoni ( n. 1929), professor de Sociologia, jornalista e escritor, um estudioso dos movimentos coletivos e das relações humanas, com vasta obra publicada sobre estas temáticas.

Este livro avança, capítulo a capítulo, no labirinto da amizade: destrinça entre enamoramento e amizade (Cap. VIII); os inimigos da amizades (Cap. XXX e Cap. IXV );  os grandes pares de amigos da Antiguidade (Cap. XVI), mas tem como ideia central, que atravessa todo o livro, um conceito chave: O ENCONTRO.

O encontro é “a mola da amizade”. O autor diz-nos que “quando encontramos um amigo, mesmo depois de muitos anos, é como se o tivéssemos deixado um momento antes” e que a amizade se constrói “através dos encontros e dura através deles”. Mesmo que os encontros sejam muito intervalados (e o autor fala-nos da estrutura do tempo granular, o tempo na amizade não é um contínuo), os amigos conseguem retomar as coisas no ponto em que as tinham deixado (p. 165). O autor conclui que “a amizade é uma filigrana de encontros”.

Ser amigo é ser preferido a todos, a qualquer outro, à imensa massa anónima dos outros (p. 49). O amigo é aquele que nos compreende (p. 53) e com quem nunca nos aborrecemos (p. 99), pois é com os amigos, na adolescência, que exploramos os mistérios da vida e, na adultez, com quem “se aprende a ver e a respeitar o outro naquilo que ele é: o nosso oposto e o nosso complemento” (p.103)

Este livro deixou-me a refletir nas amizades que tive e que acabaram, nas que  se esfumaram com o tempo e naquelas outras que (ainda) se manifestam no silêncio das distâncias, dos não-encontros, [ e a pandemia não é desculpa para estes silêncios  e não-encontros]. Contudo, sei que, apesar de chegada a esta idade mais pacificada, ainda acredito em amigos para a vida. Caminhantes lado a lado na vida. Sei que os tenho e que não saberia viver sem eles.

A AMIZADE
Francesco Alberoni
Bertrand Editora, 2011

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Matiné do Riso

No passado dia 20 de março, Dia Internacional da Felicidade, no que era suposto ser uma tranquila tarde de sábado, fui sobressaltado por uma iniciativa da equipa da ATLAS que nos presenteava com uma Matiné do Riso. A sessão seria facilitada por José Santos, Embaixador do Yoga do Riso em Portugal, e a assistência era desde logo convidada a não se inibir de soltar muitas gargalhadas! Mas, perguntarão os caros leitores, porquê o sobressalto? Por causa do “ioga do riso”.

Para mim, um ignorante nesta matéria, ioga é uma prática meditativa associada a exercícios físicos que esticam até aos limites (!) os músculos, tendões, nervos, articulações, tudo num ambiente de grande calma e infinita placidez. Como seria possível rir nestas circunstâncias? Na melhor das hipóteses, a ideia de estalar articulações e repuxar músculos poderia, quando muito, provocar risos nervosos! Confesso que tinha hesitado em me inscrever na sessão. Mas… a atração pelo abismo foi muito grande e lá fui à sessão… era em Zoom e, enfim, havia sempre a possibilidade de haver uma falha de comunicação mesmo a propósito…

Lá fui… e ri-me muito,

mesmo sem ter saído da cadeira!

Ri-me eu, e riu-se a assistência composta por beneficiários, simpatizantes e voluntários que preenchia bem a “sala” do Zoom. E rimo-nos de quê? Do riso! Sim, rimo-nos do riso! A sessão, muito animada e entusiasticamente conduzida por José Santos, constava essencialmente de exercícios físicos (leves, leves, aah, deste ioga gosto eu!) acompanhados pela vontade de cada um de nós rir, porque rir é o que queríamos fazer naquele momento, porque rir é bom, porque rir não paga IVA, rir porque sim, rir porque num tempo onde tantas ideias são atualizadas, podemos atualizar o clássico ditado “quem canta seus males espanta” para “quem faz ioga do riso sua vida leva com um sorriso”. Estou a ser demasiado otimista? Talvez, mas riso a riso vai a vida enchendo o papo!

Ficou o sorriso de cada um de nós.

E, sobretudo, caros leitores, ficou o sorriso de cada um de nós no fim da sessão! Como foi bom sentir que uma assistência tão alargada tinha partilhado momentos agradáveis e de muita cumplicidade! Sim, cumplicidade, porque rirmo-nos uns para os outros, muitas vezes sem nos conhecermos, apenas porque queríamos todos rir, sim, foi um exercício de cumplicidade radical! Deste fim de tarde, ficou em mim, e creio que na assistência, a recordação da felicidade de uma tarde de riso partilhada!

Mas afinal o que é o ioga do riso? Agora sim, rio de nervoso, mesmo estando apenas sentado na cadeira donde escrevo, sem ter de fazer exercícios físicos que esticam até aos limites os músculos, tendões, etc.: Não sei o que é o ioga do riso! Mas sei que existe porque vivi-o mesmo que apenas momentaneamente! Prometo que numa próxima newsletter saberei do que agora escrevi! Até lá, não se inibam de rir sempre que possível, mesmo que seja apenas desta minha ignorância!

Sintam-se convidados e convidadas a conhecer mais sobre o trabalho do José Santos: aqui

Registo de um momento do Encontro ao Serão – Matiné do Riso, dinamizado por José Santos com voluntários, beneficiários e amigos da ATLAS – People Like Us.

Autor
Rui Bingre
Voluntário no Projeto Velhos Amigos

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Uma leitura, uma partilha de opinião.

“Uma leitura, uma partilha de opinião” é um espaço de partilha entre voluntários e voluntárias da ATLAS. Aqui descobrimos o que andam a ler, quais as suas reflexões e sentimentos.


A Dádiva dos Anos de Joan Chittister

Comentário de
Deolinda Ferreira
Voluntária do Projeto Velhos Amigos em Leiria

A vida muda!

A essência da vida é mudança; e, a mudança é óbvia, quer queiramos quer não. Quer gostemos quer não. A vida é um acontecer sucessivo, tão cheio de novidade. «O melhor ainda está para vir, a última parte da vida, para a qual foi feita a primeira», escreveu Robert Browning. Citado por Joan Chittister em A DÁDIVA DOS ANOS, o livro que estou a ler. (E recomendo)

É de espantar, esta perspetiva de olhar a vida, tão cheia de possibilidades, energia e vigor. É a grande beleza da vida, a sua essência: fazer-nos novas exigências, trazer-nos novos desafios e, necessariamente incitar-nos a vivê-los. Quer o queiramos quer não.

Enquanto caminhava, numa das ruas da cidade, percorria no meu pensamento, esta ideia, sempre atual e feliz: és um ator da tua história, neste grande palco da vida. Enfrenta tudo o que está para vir, com entusiasmo, nesta fase da tua existência… porque “o melhor ainda está para vir…” Tudo se resume e faz sentido, quando vemos que o nosso ser e estar, é significativo para os outros, próximos de nós, para aqueles de quem gostamos e, juntos, nos sentimos bem. Há como que um florescimento do nosso eu; feliz e a transbordar. Como as flores de múltiplas cores e tonalidades profundas, resistentes ao vento e às intempéries das estações. Assim, as nossas vidas, além de ganharem um novo matiz, transportam também uma nova maturidade e profundidade interior que este mundo, em correria tanto aprecia e precisa.

Há todo um mundo novo a descobrir….

Há partes de mim que foram tão cuidadosamente vedadas ou mesmo escondidas dos outros, durante anos e, até desprezadas de mim própria. Agora, estão disponíveis para serem experimentadas, usadas e saboreadas…. Claro! Isto requer a curiosidade da criança, o entusiasmo do jovem e a confiança do adulto. A verdade é que nesta fase da vida, sinto-o, há um novo florescimento do meu eu, um novo crescimento a cuidar. Animada, pois, compreendo que há todo um mundo novo à minha e à nossa frente, tão cheio de potencialidades que é preciso enfrentar, com entusiasmo e boa vontade, para nele interagir seja de que maneira for, dando sempre o melhor de nós próprios, no sentido da dádiva que somos para o outro e para o mundo.

É este o tempo de saborear a essência da vida, sinto-o! Em vez de nos ocuparmos e preocuparmos com o acessório. Levámos tanto tempo a descobrir a beleza das coisas simples, a olhar um pôr do sol, a dar valor a uma boa companhia e surpreendentemente descobrimos e compreendemos que o que temos é suficiente e nos basta!

Deolinda Ferreira

A Dádiva dos Anos
Joan Chittister
Paulinas Editora, 2012


Estão todos e todas convidadas a deixar comentários ao artigo no fim desta página! Partilhem também as vossas leituras para geral@atlaspeoplelikeus.org

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Do Assistencialismo à Solidariedade

O meu nome é Hélia Carla Amado Rodrigues, nos últimos anos trabalhei nas áreas do acolhimento residencial de crianças e jovens em perigo e formação/ensino. Invisto de forma continua na minha capacidade de ser útil nos valores de – cooperação e solidariedade de reciprocidade – com o objetivo de me acrescentar na elasticidade/plasticidade cerebral nas diferentes dinâmicas sociais, sobretudo fora da minha zona de conforto. Procuro sair da minha moldura/caixa dos afazeres diários, contribuindo assim para o crescente da minha criatividade de soluções, onde possa ser significativa nas pequenas ações que espero terem impacto nos seus usuários/recetores. Escolhi doar tempo e solidarizar-me com a Atlas no seu projeto – Velhos Amigos.


Assistencialismo vs Solidariedade

Proponho neste parágrafo a reflexão breve entre – assistencialismo vs solidariedade, numa linha da distinção para a sua união, ou seja o assistencialismo com uma vertente moral caritativa da dádiva aos desvalidos (tratar dos pobrezinhos) para uma visão assente nos prismas da solidariedade de reciprocidade[1], a responsabilidade da ação voluntária com paridade de decisão, entre o dador e o recetor, desemboca na solidariedade.

Sendo assim, um voluntariado substantivo da condição humana nas diferentes dimensões inerentes[2], e, recusar a ação de voluntariado numa base no sentido único da dádiva do assistencialismo com uma dependência das políticas do estado ou do excedente da economia de mercado, emancipá-la para – aquela que promove e que não assiste só -, torna-la num contributo para as tomadas de decisões políticas com base no conhecimento da prática do fazer e do estar, para uma ação assertiva do e com o SER.

Importa sentir que não basta só dar mas envolver os recetores nas decisões, tornando-os assim os decisores com projeções para o e com futuro – agentes ativos da própria mudança.

45 frases de solidariedade que vão te ajudar a praticar esse ato

[1] Conceito de reciprocidade: dar sem esperar receber em troca; receber sem sentir a obrigação de dar em troca; e, trocar bens e serviços sem importância mercantil / lucro.

[2] Como a: social, sistémica, política, económica, ambiental, territorial, cultural, cognitiva, ética, entre outras


Autora
Helia Carla Amado
Educadora Social e voluntária do Projeto Velhos Amigos na Marinha Grande

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