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Uma leitura, uma partilha de opinião.

“Uma leitura, uma partilha de opinião” é um espaço de partilha entre voluntários e voluntárias da ATLAS. Aqui descobrimos o que andam a ler, quais as suas reflexões e sentimentos. Estão todos e todas convidadas a deixar comentários ao artigo no fim desta página!


Memórias inesquecíveis

Comentário de Celina Gameiro

Residente em S. Simão de Litém, concelho de Pombal. Licenciada em Línguas e Literaturas modernas, variante de estudos franceses e ingleses, pela FLUC. Ouvinte e observadora. Voluntária na Atlas, no projeto Velhos Amigos.


Lembrei-me do meu avô. Podia ter sido por acaso, por qualquer razão, mas foi porque o autor Gao Xingjian tem uma colectânea de contos intitulada Uma cana de pesca para o meu avô. Este é o nome da colectânea e também de um dos contos incorporados. Talvez o mais bonito.

Não é uma ode fantástica. É apenas uma história muito simples de um neto que passou numa loja de artigos de pesca e viu uma cana e lembrou-se do avô. De repente quis oferecer-lhe uma. O avô gostava de pescar e usava exclusivamente canas feitas de bambu, o que há aos pontapés na China, e o neto queria mostrar-lhe um modelo mais moderno e menos artesanal.

O avô é que fazia as suas canas, não eram daquelas que se encaixavam umas nas outras até caberem no último tubinho, facilitando o transporte. Eram de bambu curvado e aquecido até ganharem a cor e a forma apropriadas. Só os carretos e os anzóis é que vinham da cidade. O petiz, já não tão petiz, resolve visitar esse espaço da sua infância onde vivia o avô e achou tão estranha a transformação que o tempo trouxe que já nem sabia onde ficava. Onde havia casas pequenas e ribeiros passou a haver prédios e estradas. Tudo muito homogéneo. As casa todas iguais umas às outras. A paisagem tinha-se alterado completamente.

Quando visito esse altar da minha infância que era a casa do meu avô, onde todos nos reuníamos, vejo que lhe falta a vida e o pulsar de antigamente.

A estrutura ainda se mantem. O pátio também, com as lajes de mármore encaixadas umas nas outras, mas o tempo trouxe uma manta negra que as vai cobrindo e trouxe o silêncio. Mesmo assim, consigo ouvir ruídos quando lá vou. Ouço os passos das corridas da nossa infância, até daquela onde parti um braço. Ouço o baloiço com a fila das primas à espera da sua vez. Ouço as risadas das irmãs à conversa umas com as outras enquanto preparavam os tortulhos. Ouço o aparelho do meu avô a ajustar-se. Ouço os meus tios a desafiarem-se num jogo de sueca. Ouço os pratos que se alinham pela mesa comprida. Ouço os talheres contados a preceito e sem preconceito para quem chega. Ouço os jogos sem fronteiras na televisão sempre com a energia embelezada da figura do Eládio Clímaco. Ouço as mãos que cortam o pão caseiro. Ouço e cheiro os assados que saem do forno a lenha. Lenha de oliveira. Ouço alguém que levanta o moal, mais num registo de brincadeira que já havia debulhadora. O moal era para coisa pouca. Vejo sorrisos estampados, brilhantes e genuínos. Éramos muitos. Éramos meninos.

As memórias e as vivências são tudo o que nos resta.

Uma cana de pesca para o meu avô
de Gao Xingjian

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Uma leitura, uma partilha de opinião.

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De nada na mão

Comentário de Celina Gameiro

Residente em S. Simão de Litém, concelho de Pombal. Licenciada em Línguas e Literaturas modernas, variante de estudos franceses e ingleses, pela FLUC. Ouvinte e observadora. Voluntária na Atlas, no projeto Velhos Amigos.

Isabel Allende, autora de inúmeros romances, é uma emigrante chilena, residente na Califórnia, nos Estados Unidos da América. A influência que o seu país de origem teve nela e a referência ao mesmo aparecem na maior parte das suas obras.

O meu país inventado é uma viagem por esse país de muitos contrastes e nessa viagem conseguimos cheirar e saborear a nostalgia e o amor à pátria que qualquer emigrante carrega na sua mala.

Logo no início a autora fala-nos dos contrastes geográficos do Chile: as florestas densas do sul regadas com chuvas torrenciais (que muitas vezes cobrem as povoações nas redondezas e que têm vindo a ser ameaçadas pelas indústrias madeireiras), as serras nevadas da Cordilheira dos Andes (que fazem o Chile voltar as costas ao continente latino-americano), o pacífico adormecido (que banha o país e lhe lava a cara) e no norte o deserto de Atacama que ataca ferozmente quem quer que se aventure a atravessá-lo.

Isabel atravessou-o na primeira vez que saiu do Chile em direção à Bolívia. Vencia a sede a chupar laranjas e a beber água por galões. Fiquei a saber que o Chile possui um troço do continente antártico “um mundo de gelo e solidão… onde nascem as fábulas e perecem os homens”.  A ilha da Páscoa também pertence ao Chile, chama-se Rapanui em pascoense. Assim como a ilha de Juan Fernández, onde foi abandonado um marinheiro escocês que sobreviveu na ilha, que acabou por motivar a história de Daniel Defoe ”Robinson Crusoe”.

Quando se emigra, ou quando se sai do país durante algum tempo, o que nos vem à ideia é a comida: os sabores e as lembranças associadas aos sabores, seja a presença da família ou a piadola chanfrada de algum amigo.

Isabel fala-nos com algum detalhe de alguns pratos típicos chilenos: o manjar-branco ou doce de leite (parecido com o nosso arroz-doce, só que sem arroz), as empanadas (pastéis de carne e cebola), a cazuela (uma sopa de carne, milho, batata e legumes) e chupe de mariscos (um guisado aromático de mariscos). Quantos portugueses levaram na mala o famoso bacalhau, ou algum chouriço?

Houve um acontecimento que levou a autora a fazer as malas, de vez, do seu país de origem. Foi o Golpe Militar a 11 de setembro de 1973 liderando pelo general Augusto Pinochet. Foi um acontecimento de natureza política que fez mergulhar o país numa ditadura militar durante 17 anos. Isabel que era prima do anterior governante, Salvador Allende, teve de fugir para não ser perseguida ou sofrer represálias do governo. Mas como há males que vêm por bem ganhou a distância necessária para se tornar escritora, para se corresponder com o seu avô Agustín, o seu comparsa, com quem viveu na infância, e para encontrar aquele que viria a ser o seu companheiro na Califórnia: Willie.

O meu país inventado
de Isabel Allende

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Unidos vencemos, separados caímos

Comentário de Celina Gameiro

Voluntária na Atlas, no projeto Velhos Amigos. Residente em S. Simão de Litém, concelho de Pombal.  Licenciada em Línguas e Literaturas modernas, variante de estudos franceses
e ingleses, pela FLUC. Ouvinte e observadora. 

Desta vez a leitura fez-me sair de Portugal e andar um pouco pelo mundo. Consegui-o através de Jhumpa Lahiri, uma escritora e contista com ascendência indiana, nascida em Londres e residente em Nova Iorque.

Do seu livro de contos “Intérprete de enfermidades”, o que mais me marcou foi o conto “Quando o senhor Pizarda vinha para jantar”. Gostei deste conto pela temática em si: do exílio, da imigração, dos refugiados, não da Síria ou do norte de África, mas do Paquistão. Mas gostei sobretudo do facto de o narrador ser uma criança.

Os olhos das crianças são sempre diferentes dos adultos
e não entendem as separações.

Para elas o mundo seria uma festa onde todos viveriam de mãos dadas. O senhor Pizarda era um professor assistente numa universidade, em Dacca, marido e pai de sete filhas. Foi-lhe atribuída uma bolsa de estudo para viajar até Nova Iorque e investigar o tipo de folhagem de Nova Inglaterra. A bolsa não era lá muito avultada pelo que ele tinha de viver numa residência de estudantes. Os pais de Lília, oriundos da Índia, tinham conhecimentos de gente ligada à universidade e viram no senhor Pizarda uma forma de conviver com um compatriota. Para o senhor Pizarda era uma forma de ter um jantar agradável, de ver o noticiário e de ter notícias da sua terra e família.

À pequena Lília bastavam-lhe os rebuçados que ele trazia no bolso. Só isso já fazia a companhia do senhor Pizarda valer a pena. Houve uma noite em que o senhor não foi. O pai de Lília comunicou-lhe que ele já não era indiano. Que o país se dividira. Que ele pertencia à parte muçulmana. O pai explicou à pequena que durante esta divisão ambas as partes soltavam fogo à casa uns dos outros e que não concebiam sequer viverem na mesma região, quanto mais partilharem uma refeição.  A pequena não entendia esta divisão. Se as pessoas falavam a mesma língua, riam das mesmas piadolas, tinham hábitos semelhantes e até se pareciam uns com os outros porque haveriam de se maltratar e excluir? Na noite seguinte o senhor Pizarda voltou para jantar, apesar das diferenças, apesar dos acontecimentos, apesar de ser um refugiado paquistanês em casa de indianos. Mas foi bem recebido e mimou, como de costume, a miúda com doces. A pequena que nem sabia se ele se ofenderia se fosse tratado de indiano, acabou por ter o melhor exemplo da sua família: o saber acolher, o não preconceito, o saber discutir sobre temáticas e assuntos com respeito pela opinião do outro, que pode perfeitamente ser diferente da nossa. O senhor Pirzada acabou por ter de regressar a casa, a Dacca. Não voltou mais para jantar. Deixou um lugar vazio, mas muitas recordações e a pequena percebeu o que era sentir a falta de alguém, a saudade. Quando os relacionamentos são bons e há aceitação e amizade, quando a pessoa parte, fica a saudade.

Os pequenos gestos, até o simples levantar de um copo permanecem gravados na nossa mente e também no coração. Às vezes, é preciso fazer um grande esforço para aceitar e até perceber a forma de vida das outras pessoas que podem ser tão diferentes da nossa. Mas, na maior parte das vezes, vale a pena!

Intérprete de Enfermidade
de Jhumpa Lahiri

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Durante a queda aprendi a voar

Comentário de Fernanda Castela
Voluntária do Atlas desde a sua fundação. Adora ler, jardinar e música clássica. Colaboradora na Faculdade de Medicina da UC. Tem 62 anos, casada, 2 filhos, 4 netos e vive em Cernache.

A minha sugestão de leitura vai para um livro que li há uns tempos e que me ficou na memória pela simplicidade como está escrito e pela forma como o autor trata do tema depressão, com tanta leveza, sem sequer fazer drama disso.

Quando começamos a ler, achamos que é uma historia de amor e efetivamente é, mas à medida que vamos avançando na leitura verificamos que se trata de amor das várias formas de existir: paternal, filial, amor ao próximo e principalmente na entrega ao outro.

É na dedicação incondicional do pai e na reciprocidade do amor filial que este livro nos mostra que por amor se consegue ultrapassar tantos obstáculos.

É também da dedicação e na cumplicidade entre irmãos e como um irmão se anula para se dedicar ao outro, tanto fazendo-se passar por jovem rapazinho, ou se transformando em adulto e lhe dá ordens como de um pai se tratasse. Ao mesmo tempo é aflitivo ver a quantidade de “sombras” que o nosso cérebro consegue criar, como podemos e devemos tratar.

No livro em causa foi uma depressão muito bem acompanhada tanto profissional como familiar. E não deveria ser assim na ficção e na vida real?
Mas é igualmente bom de ler, a parte em que mais uma vez o autor nos leva a pensar o quanto nos faz bem a entrega ao outro e a maioria das vezes, é muito mais o que recebemos do que temos que dar.

O facto de tentarmos perceber as dificuldades dos que nos rodeiam, faz-nos pensar que lhe devíamos dar muito mais valor. Foi o que aconteceu também com o Duarte que ao ajudar alguém que nem sequer conhecia recebeu o seu sorriso, algo que já estava esquecido.

Este raciocínio leva-me a pensar nos nossos “Velhos Amigos”.

Muitas vezes quando vou visitar, penso se seria capaz de estar há um ano fechada entre quatro paredes, como se costuma dizer, entregue simplesmente a uma televisão e às pessoas que pontualmente os visitam. E, no entanto, lá estão eles com um sorriso à nossa espera ficando felizes com tão pouco. É tão fácil fazê-los felizes.

Mas voltando ao livro e como o melhor vem sempre no fim, foi exatamente o final que me surpreendeu.

O livro que acabo de descrever trata-se de “Durante a queda aprendi a voar” de Raul Minh’Alma

Durante a queda aprendi a voar
Raul Minh’Alma

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Atribua, sem custos, 0,5% do seu IRS à ATLAS

e ajude-nos a apoiar idosos em situação de isolamento

​Sabia que ao preencher a sua declaração de IRS pode doar 0,5% do seu imposto a uma organização social, sem receber menos e sem pagar mais?

Basta uma cruz no quadro 3 do campo 11, quando estiver a preencher o seu IRS e colocar o nosso NIF – 508 425 913, como aparece no esquema abaixo.

Dúvidas e Respostas

posso escolher o destino da minha consignação?

A lei portuguesa permite que todos os contribuintes possam doar 0,5% do seu IRS já liquidado a Instituições Particulares de Solidariedade Social ou Pessoas Colectivas de Utilidade Pública, entre as quais a ATLAS – People Like Us.


porque devo escolher a ATLAS – People Like Us?

Porque ao apoiar a missão da ATLAS – People Like Us, está a contribuir para a que consigamos fazer crescer o Projeto Velhos Amigos e apoiar mais idosos em situação de isolamento e carência económica.


atribuir 0,5% do meu IRS à ATLAS tem custos?

Consignar 0,5% do seu IRS à ATLAS – People Like Us não tem qualquer custo para si. Ao fazê-lo, está a canalizar parte dos seus impostos (que de outra forma ficariam para o Estado) para a instituição.


quando posso preencher o meu IRS e fazer a consignação de 0,5% do meu IRS à ATLAS?

Em 2021, o prazo de entrega da declaração de rendimentos decorre entre: 1 de Abril a 30 de Junho, independentemente do tipo de rendimentos recebidos.


Obrigada por apoiar a nossa missão!

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Almoço de sábado e “Almoço de Domingo”

Comentário de
Celina da Costa Gameiro
Voluntária do Projeto Velhos Amigos, residente em S.Simão de Litém – Pombal
Licenciada em Línguas e Literaturas modernas, variante de estudos franceses e ingleses, pela FLUC

Acabei recentemente de ler o novo livro do autor José Luís Peixoto intitulado “Almoço de Domingo”. Quando o comprei, sabia que se tratava de uma biografia, mais particularmente de Rui Nabeiro, o grande empresário do café Delta, mas estava longe de imaginar o tipo de viagem que esta biografia me ia permitir fazer. É uma viagem constante através de tempos e de espaços, tão distintos e sempre unidos pela voz do narrador.

Começa pelo presente, que entretanto já passou. Começa por um acordar, não só o acordar do sono, mas também o acordar da consciência, de onde está e de quem é e qual é a sua situação. “Sabia que envelhecer é acumular dores: começam por doer certos gestos, certos jeitos, virar-se de repente, agachar-se para atar o sapato; depois doem as acções mais comuns, sentar-se, levantar-se, caminhar; até que, por fim, dói tudo, dói estar, dói ser.” Mas, de repente, naquele acordar, não havia dores, só lembranças: “os óculos do Marcello Caetano são sofisticados. A grossura das lentes não lhe reduz o feitio dos olhos”. Prosseguiu até às farinheiras de sua mãe: “o cheiro avinagrado da massa das farinheiras que repousava em dois alguidares” e depois “a mãe e duas mulheres, com unhas cortadas à tesoura, a encher as tripas” e a voz da mãe a chamá-lo: “Onde existia a voz da mãe naquele instante?”

A mãe chamava-o dentro de si e transportava-o até à infância, até à salsicharia, da qual era dona, e para junto dos fumeiros, onde o instruía: “O lume tem de se conformar com chamas comedidas, sem extravagâncias de grande queima…” e ele mantinha-se alerta: “ É por isso que estou de sentinela, esta cana serve para animar o lume se começa a esmorecer, mas também para lhe dar uma cacetada se quiser levantar cabelo…” A mãe ficou viúva cedo com os filhos ao seu encargo e quando o rapaz ficou espigadote, a mãe achou por bem intervir, pedindo que escrevessem uma carta ao Presidente da República, para que lhe livrasse o filho da tropa, que precisava dele: “a carta roga ao presidente que me passe à reserva militar, ou que me permita cumprir o mínimo indispensável…diz que sou o amparo da família…”

A outra mulher que acompanha o protagonista ao longo da sua história é Alice, a sua esposa. “Nunca se cansava de repetir esse nome no seu íntimo…” Alice esteve e está sempre lá, junto dele: “a mulher a querer ajudá-lo, chega aqui, a mulher a compor a gravata, Alice, há minutos apenas, a mulher sentada, ele inclinado sobre ela…”

Uma das memórias que o acompanha é o do velório do próprio pai: “…tinha dezassete anos no interior dessa lembrança, a mãe, o irmão e as irmãs estavam vagamente atrás de si da maneira que, naquele momento, tinha a família do seu amigo mais sincero atrás de si…”, “Com dezasseis anos, não imaginava todo o tempo que teria de viver sem o pai, não imaginava que haveria um período imenso da vida em que seria obrigado a viver com a ideia de nunca mais ter um pai…”

A figura paternal passou a ser representada por um tio: o tio Joaquim. Foi ele que lhe abriu as portas para o mundo e negócio do café e tornou-se para ele um pai, padrinho, patrão.

O almoço de domingo foi efectivamente celebrado, não só em todos os domingos, mas naquele domingo da festa dos 90 anos do senhor Rui. No seguimento do almoço seguiram-se festejos e apresentações dos feitos do senhor comendador, como ele é conhecido na vila de Campo Maior, realizadas por crianças, pelas gerações mais novas: “Depois dessa coreografia, espécie de ginástica, escutou-se a voz de um menino a ler com boa entoação, contava a história do senhor Rui, também ele menino, em Campo Maior, nos anos trinta do século XX…O senhor Rui achou engraçado que fosse necessário explicitar o século…” De facto, “todas aquelas crianças desconheciam esse século!”

A história dele desenrola-se com muito pormenor como conversa em que cereja puxa cereja e vão-se desenhando tempos e espaços: tempos de fascismo, tempos de enterro desse fascismo, tempos de pobreza e é de realçar o facto de este senhor ser padrinho de tanta gente e patrão de tantos outros, a quem deu emprego, muitas vezes, para responder às suas necessidades básicas e prementes.

Como voluntária da Atlas, no projecto Velhos Amigos, orgulho-me de fazer chegar aos beneficiários o almoço de sábado. Infelizmente, não é uma refeição que os beneficiários partilhem com amigos e familiares, mas pelo menos, enquanto nos recebem, também eles têm um pouco a possibilidade de viajar através das suas pequenas memórias e de as partilharem connosco. É a nossa forma de lhes proporcionar “um almoço de Domingo” e de partilhar momentos com eles.

Almoço de Domingo
José Luís Peixoto

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A Sublime Arte de Envelhecer de Anselm Grun

Comentário de
Rui Bingre
Voluntário do Projeto Velhos Amigos em Leiria

Anselm Grun é monge beneditino, responsável financeiro da Abadia de Munsterschwarzach na Alemanha e, segundo a Wikipédia, “autor de aproximadamente 300 livros com foco na espiritualidade. Dos seus livros, mais de 15 milhões de cópias foram vendidas em 30 idiomas” (!) e tinha 64 anos quando escreveu este livro. Estes pormenores biográficos são importantes para uma melhor compreensão do livro.

Logo nas primeiras páginas duas frases lapidares que me atrevo a classificar de indiscutíveis (“A nossa vida só é bem sucedida se aceitarmos o processo de envelhecimento”) e (“O Homem envelhece por si só. Mas o facto de envelhecer com sucesso depende apenas dele próprio”), prenderam-me a atenção suscitando-me a pergunta “o que devo, então, fazer para envelhecer com sucesso?”. Note-se, pela biografia do autor do livro, que fiz esta pergunta (via leitura do livro) a um homem com uma extraordinária envergadura intelectual e espiritual.

As respostas que encontrei são sensatas (“a vida não se constrói sozinha”), motivadoras (“sábio é aquele que gosta de si próprio e faz com que gostem de si”) e muitas outras de igual mérito. Acresce que o tom geral do livro não é, felizmente, de “guru da felicidade”, longe disso! A proposta de Anselm Grun é a da vivência da velhice como uma caminhada tranquila mas exigente na “capacidade de aceitação da própria existência” (reconciliação com o passado, aceitar os seus próprios limites, aprender a viver com a solidão) da “renúncia” (renunciar aos bens materiais, ao poder, ao ego, etc.) e no “cultivo das virtudes da velhice” (serenidade, paciência, liberdade, gratidão, amor, etc.). É um caminho difícil (o próprio Grun diz-nos que nos seus 64 anos ainda não se sente capaz de os cumprir integralmente) e que, na minha opinião, talvez esteja facilitado para quem viva numa profunda envolvência do pensamento cristão, sem prejuízo, no entanto, de ser igualmente exequível fora desse contexto religioso. O livro provoca e merece uma reflexão cuidada. Mas imaginem, caros leitores deste artigo, que a minha próxima leitura, já planeada antes de ler Anselm Grun, tem como título “Que se Lixem os 70, Guia para (os) Viver Bem” do distinto médico Muir Gray, editora IN. Parto para essa leitura como parti para a anterior: de espírito aberto. Espero um choque de diferenças entre ambas as visões da velhice. Não sei qual das duas me influenciará mais, mas provavelmente ficarei a meio do caminho, não por virtude minha mas porque nos meus 67 anos ainda não me sinto capaz de cumprir a proposta de Grun e, provavelmente, não terei a disciplina e a vontade necessárias para ser o jovem de barba branca e saltitante da capa do livro de Gray. Fica-me a esperança que este gosto de continuar a buscar respostas seja uma pequena alínea de uma sublime arte de envelhecer.

A Sublime Arte de Envelhecer
Anselm Grun
Paulinas Editora, 2011

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Vamos ser amigos para sempre

Comentário de
Irene Primitivo
Voluntária do Projeto Velhos Amigos em Leiria

Vamos ter amigos para sempre. Quem de nós não se revê a ter escrito isto numa composição da escola sobre um amigo especial? Ou, com sorte, a ler um texto destes no caderno do filho, quando ele era mais jovem, criança ainda?

É assim a amizade, “ a única relação afetiva incompatível com a ambivalência”. Quem no-lo diz é Francesco Alberoni ( n. 1929), professor de Sociologia, jornalista e escritor, um estudioso dos movimentos coletivos e das relações humanas, com vasta obra publicada sobre estas temáticas.

Este livro avança, capítulo a capítulo, no labirinto da amizade: destrinça entre enamoramento e amizade (Cap. VIII); os inimigos da amizades (Cap. XXX e Cap. IXV );  os grandes pares de amigos da Antiguidade (Cap. XVI), mas tem como ideia central, que atravessa todo o livro, um conceito chave: O ENCONTRO.

O encontro é “a mola da amizade”. O autor diz-nos que “quando encontramos um amigo, mesmo depois de muitos anos, é como se o tivéssemos deixado um momento antes” e que a amizade se constrói “através dos encontros e dura através deles”. Mesmo que os encontros sejam muito intervalados (e o autor fala-nos da estrutura do tempo granular, o tempo na amizade não é um contínuo), os amigos conseguem retomar as coisas no ponto em que as tinham deixado (p. 165). O autor conclui que “a amizade é uma filigrana de encontros”.

Ser amigo é ser preferido a todos, a qualquer outro, à imensa massa anónima dos outros (p. 49). O amigo é aquele que nos compreende (p. 53) e com quem nunca nos aborrecemos (p. 99), pois é com os amigos, na adolescência, que exploramos os mistérios da vida e, na adultez, com quem “se aprende a ver e a respeitar o outro naquilo que ele é: o nosso oposto e o nosso complemento” (p.103)

Este livro deixou-me a refletir nas amizades que tive e que acabaram, nas que  se esfumaram com o tempo e naquelas outras que (ainda) se manifestam no silêncio das distâncias, dos não-encontros, [ e a pandemia não é desculpa para estes silêncios  e não-encontros]. Contudo, sei que, apesar de chegada a esta idade mais pacificada, ainda acredito em amigos para a vida. Caminhantes lado a lado na vida. Sei que os tenho e que não saberia viver sem eles.

A AMIZADE
Francesco Alberoni
Bertrand Editora, 2011

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A Dádiva dos Anos de Joan Chittister

Comentário de
Deolinda Ferreira
Voluntária do Projeto Velhos Amigos em Leiria

A vida muda!

A essência da vida é mudança; e, a mudança é óbvia, quer queiramos quer não. Quer gostemos quer não. A vida é um acontecer sucessivo, tão cheio de novidade. «O melhor ainda está para vir, a última parte da vida, para a qual foi feita a primeira», escreveu Robert Browning. Citado por Joan Chittister em A DÁDIVA DOS ANOS, o livro que estou a ler. (E recomendo)

É de espantar, esta perspetiva de olhar a vida, tão cheia de possibilidades, energia e vigor. É a grande beleza da vida, a sua essência: fazer-nos novas exigências, trazer-nos novos desafios e, necessariamente incitar-nos a vivê-los. Quer o queiramos quer não.

Enquanto caminhava, numa das ruas da cidade, percorria no meu pensamento, esta ideia, sempre atual e feliz: és um ator da tua história, neste grande palco da vida. Enfrenta tudo o que está para vir, com entusiasmo, nesta fase da tua existência… porque “o melhor ainda está para vir…” Tudo se resume e faz sentido, quando vemos que o nosso ser e estar, é significativo para os outros, próximos de nós, para aqueles de quem gostamos e, juntos, nos sentimos bem. Há como que um florescimento do nosso eu; feliz e a transbordar. Como as flores de múltiplas cores e tonalidades profundas, resistentes ao vento e às intempéries das estações. Assim, as nossas vidas, além de ganharem um novo matiz, transportam também uma nova maturidade e profundidade interior que este mundo, em correria tanto aprecia e precisa.

Há todo um mundo novo a descobrir….

Há partes de mim que foram tão cuidadosamente vedadas ou mesmo escondidas dos outros, durante anos e, até desprezadas de mim própria. Agora, estão disponíveis para serem experimentadas, usadas e saboreadas…. Claro! Isto requer a curiosidade da criança, o entusiasmo do jovem e a confiança do adulto. A verdade é que nesta fase da vida, sinto-o, há um novo florescimento do meu eu, um novo crescimento a cuidar. Animada, pois, compreendo que há todo um mundo novo à minha e à nossa frente, tão cheio de potencialidades que é preciso enfrentar, com entusiasmo e boa vontade, para nele interagir seja de que maneira for, dando sempre o melhor de nós próprios, no sentido da dádiva que somos para o outro e para o mundo.

É este o tempo de saborear a essência da vida, sinto-o! Em vez de nos ocuparmos e preocuparmos com o acessório. Levámos tanto tempo a descobrir a beleza das coisas simples, a olhar um pôr do sol, a dar valor a uma boa companhia e surpreendentemente descobrimos e compreendemos que o que temos é suficiente e nos basta!

Deolinda Ferreira

A Dádiva dos Anos
Joan Chittister
Paulinas Editora, 2012


Estão todos e todas convidadas a deixar comentários ao artigo no fim desta página! Partilhem também as vossas leituras para geral@atlaspeoplelikeus.org

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Do Assistencialismo à Solidariedade

O meu nome é Hélia Carla Amado Rodrigues, nos últimos anos trabalhei nas áreas do acolhimento residencial de crianças e jovens em perigo e formação/ensino. Invisto de forma continua na minha capacidade de ser útil nos valores de – cooperação e solidariedade de reciprocidade – com o objetivo de me acrescentar na elasticidade/plasticidade cerebral nas diferentes dinâmicas sociais, sobretudo fora da minha zona de conforto. Procuro sair da minha moldura/caixa dos afazeres diários, contribuindo assim para o crescente da minha criatividade de soluções, onde possa ser significativa nas pequenas ações que espero terem impacto nos seus usuários/recetores. Escolhi doar tempo e solidarizar-me com a Atlas no seu projeto – Velhos Amigos.


Assistencialismo vs Solidariedade

Proponho neste parágrafo a reflexão breve entre – assistencialismo vs solidariedade, numa linha da distinção para a sua união, ou seja o assistencialismo com uma vertente moral caritativa da dádiva aos desvalidos (tratar dos pobrezinhos) para uma visão assente nos prismas da solidariedade de reciprocidade[1], a responsabilidade da ação voluntária com paridade de decisão, entre o dador e o recetor, desemboca na solidariedade.

Sendo assim, um voluntariado substantivo da condição humana nas diferentes dimensões inerentes[2], e, recusar a ação de voluntariado numa base no sentido único da dádiva do assistencialismo com uma dependência das políticas do estado ou do excedente da economia de mercado, emancipá-la para – aquela que promove e que não assiste só -, torna-la num contributo para as tomadas de decisões políticas com base no conhecimento da prática do fazer e do estar, para uma ação assertiva do e com o SER.

Importa sentir que não basta só dar mas envolver os recetores nas decisões, tornando-os assim os decisores com projeções para o e com futuro – agentes ativos da própria mudança.

45 frases de solidariedade que vão te ajudar a praticar esse ato

[1] Conceito de reciprocidade: dar sem esperar receber em troca; receber sem sentir a obrigação de dar em troca; e, trocar bens e serviços sem importância mercantil / lucro.

[2] Como a: social, sistémica, política, económica, ambiental, territorial, cultural, cognitiva, ética, entre outras


Autora
Helia Carla Amado
Educadora Social e voluntária do Projeto Velhos Amigos na Marinha Grande

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