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Cuidados de alimentação para a pessoa idosa

O aumento da longevidade representa uma das maiores marcas do progresso científico e da melhoria das condições de saúde dos últimos anos. Contudo, sabe-se, hoje, que o envelhecimento conduz a um declínio geral nas funções vitais do indivíduo que, consoante o grau de perda, pode limitá-lo na realização autónoma de atividades de vida diária.

Particularmente no que respeita à alimentação, decorrem do envelhecimento inúmeras alterações estruturais e sensoriomotoras que afetam a segurança e a eficácia da deglutição (= ato de engolir), designando-se por presbifagia. Esta, em concomitância com uma ou mais doenças, pode conduzir a sintomas mais graves que dificultem ou impossibilitem a passagem segura do alimento até ao esófago, passando a designar-se disfagia orofaríngea. Entre as principais consequências da disfagia orofaríngea encontram-se a desidratação, a perda de peso, o impacto psicossocial negativo, a pneumonia de aspiração e a asfixia.

O ser humano deglute aproximadamente 600 vezes por dia e, em condições normais, a deglutição é um mecanismo que exige pouco esforço, por isso, a complexidade do seu mecanismo pode passar despercebida. Contudo, à medida que envelhecemos, este processo torna-se mais lento e menos eficaz, devido à perda de dentes, à diminuição da força muscular da língua, à perda de sensibilidade da boca e faringe e à diminuição da velocidade de resposta dos músculos.

Assim, com o passar dos anos e o acumular das alterações, cada pessoa vai fazendo, quase sem se aperceber, as suas próprias adaptações, de forma a tornar a alimentação mais fácil e segura (p.e. cozinhando melhor determinados alimentos e evitando outros).

Alguns cuidados gerais que devemos ter em consideração são:

– evitar comer rápido;

– alimentar-se com uma postura correta, mantendo o tronco a 90°;

– optar por alimentos mais macios (bem cozinhados), ligeiramente húmidos e de pequenas dimensões;

– e alternar consistências (entre líquida e sólida), de forma a limpar possíveis resíduos de alimento que fiquem acumulados na orofaringe depois de engolir.

Por outro lado, assinalam-se alguns alimentos com os quais devemos ter especial cuidado:

– alimentos com duas consistências (líquida e sólida), como canja, citrinos e outros frutos sumarentos;

– alimentos muito secos ou duros (p.e. frutos secos);

– alimentos viscosos ou aderentes (p.e. puré de batata);

– alimentos com casca aderente (p.e. leguminosas);

– e alimentos em pedaços de grandes dimensões.

Estes alimentos necessitam de melhor capacidade de resposta sensorial e motora para serem deglutidos de forma segura e, por isso, podem colocar a pessoa idosa em risco de engasgamento.

Alguns sinais de alerta para o risco de engasgamento ou asfixia são:

– tosse;

– voz alterada após engolir os alimentos;

– dificuldade em respirar;

– diminuição da SpO2;

– e sinais de desconforto ou stress durante a alimentação.

Assim, apesar de ser possível envelhecer sem experimentar dificuldades graves na deglutição, devemos estar atentos aos sinais de alerta referidos, que nos indicam a necessidade de avaliação médica e, possivelmente, de reabilitação desta função vital.

Autora
Joana santos

Terapeuta da Fala, com mestrado na mesma área e especializações em perturbações neurológicas no adulto, ao nível da comunicação e da deglutição. Atualmente, exerce a sua profissão no Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital da Universidade de Coimbra e é estudante do curso de doutoramento em Gerontologia e Geriatria da Universidade de Aveiro e do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto.

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Cuidar dos Velhos Amigos (e de nós) em tempos de instabilidade

Este não é um tempo amistoso para os nossos Velhos Amigos… cada um lidava com as suas condições de fragilidade quando veio outra privação (no relacionamento com vizinhos, amigos e familiares) e agora a ansiedade acrescida pela guerra: Vai chegar a outros países? Os meus filhos emigrados vão ficar bem? Como vou conseguir pagar as minhas despesas se tudo ficar mais caro?

Como diz o ditado popular: Não mata, mas mói! E estas preocupações vão ganhando expressão no corpo – menos apetite; alterações no sono (pesadelos; dificuldade em adormecer; acordar muito cedo); dores de cabeça; sensação de falta de energia – e influenciam o “estado de ânimo” o que, em alguns idosos, se repercute num agravar de estados depressivos ou de ansiedade.

Os Velhos Amigos que passam os dias mais sozinhos são aqueles a quem podemos prestar mais atenção. Se estiverem disponíveis para conversar, em diálogo, podemos compreender: Qual a perceção do idoso acerca do que ouve e vê na televisão? Sente-se seguro na sua casa e no seu bairro? Sente-se mais preocupado ou mais triste do que anteriormente? Tem necessidade de conversar sobre alguma notícia ou acontecimento?

Podemos esclarecer algumas ideias, transmitir sensação de segurança e dar algumas dicas para aumentar o seu bem-estar: não ver noticiários todo o dia; assistir a programas de televisão ou rádio que estimulem o bom humor (comédias; música); fazer atividades que lhe deem gosto, na medida das suas possibilidades (ver uma revista, pintar, ler, fazer palavras cruzadas, telefonar aos amigos); na medida da sua condição física, criar movimento: caminhar, estar sentado e movimentar os braços e as pernas, espreguiçar-se, respirar fundo.

Fazer exercício físico ou fazer algo que nos é prazeroso vai aumentar a produção de hormonas que estimulam a sensação de bem-estar. Parecem “pequenos nadas”, mas cada um daqueles comportamentos contribui para ajudar corpo e mente.

Autor
Sofia Carruço

Psicóloga e Voluntária na Atlas – People Like Us, em Leiria

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Construir o futuro com as tradições do passado

De noite, o zum-zum da máquina de costura, interrompia as vozes dos desenhos animados. A mãe costurava os nossos vestidos, os meus e os da minha irmã, que fazia com os moldes da Burda, para levarmos no dia das fotografias da escola. Foi assim até aos dez anos, altura em que eu já sabia dar alguns pontinhos.

Com o tempo, aprendi que esse tipo de castigo, a obrigação das meninas saberem fazer estas actividades (nasci em 1969, filha de pais portugueses emigrados no Canadá), dava jeito.

Com estes saberes, vestidos para as bonecas, depois, saias e blusas para mim, aos 15, já residente em Portugal, fazia blusas para todas as minhas amigas.

A moda ditava que as roupas feitas em casa eram ridículas, por isso, segui contra a maré.

Na escola, aprendi a lidar com contas correntes e balanços, mas nos intervalos, desenhava croquis de vestidos de noite. E vestia roupas estranhas, que fazia com a ajuda da mãe, e com a minha persistência. Ainda assim, escolhi os números. Eram mais seguros.

Trabalhei vinte e quatro anos numa empresa, com a escolha que fizera, números. No início, chegava a casa, tricotava camisolas enquanto via televisão. O pai, que vinha de uma família de pescadores da Foz do Arelho, e que desde muito cedo tecia redes com laçadas, um dia olhou para mim e disse:

– “sei fazer isso!”.

Achei graça. Ele pegou nas agulhas e tricotou duas carreiras, na maior perfeição.

Achamos que ultrapassamos os nossos pais, que as coisas que sabem são antigas tradições. Engane-se quem assim pensa. São saberes que passam de geração em geração. Achava bonito, gostava de saber fazer estas coisas, mas, até para eles, a mãe e o pai, trabalhar num escritório é que era trabalho para uma senhora.

E um dia, já o pai tinha partido, e eu já era mãe de filho e filha, fui despedida do meu emprego de senhora. De todos os pedidos de emprego que fiz, mais de mil, nem uma resposta. Vinte e quatro anos de experiência não serviam de nada.

Então, aconteceu um acidente. Num dia de vento perdi o chapéu da minha bebé, e, zangada, decidi fazer-lhe um. Depois, fiz outro para mim, coloquei uma fotografia no Facebook e vendi-o.

Isto foi há dez anos. Nestes dez anos, foi o conhecimento que a minha mãe me transmitiu que me transformou na que sempre fui. Uma mulher que constrói o futuro com as mãos. Que ouve o zum-zum da máquina de costura todo o dia. Faz ainda os seus próprios vestidos, e os vestidos de muitas outras pessoas. Não vestidos e roupas que se vendem por tuta e meia. Vestidos que são usados para manter pela vida a fora. Que contém as histórias da minha infância e são feitos com dias longos de alguém que acredita no que os pais ensinam, seja o que for, fará para sempre parte de quem és.

Construí o meu futuro de tradições do passado, e, no presente, muitas são as vezes que me sento com a minha filha de dez anos no sofá a ver televisão e a descansar, mas ouço sempre um zum-zum de uma máquina de costura. Vem da minha própria máquina, a que eu comprei às prestações mal recebi o meu primeiro salário. Não sou só eu que fiquei com esta música no ouvido, mas também o meu filho, de dezassete anos, que a usa para os seus projectos de arte.

Hoje quase com 53 anos sei, que tal como uma rede, somos feitos de todas estas ligações que nos deixaram. As nossas raízes. Os saberes da humanidade. De geração em geração. Aprendemos coisas novas, que construímos sobre o que alguém fez antes de nós.

E, que não há futuro sem ter havido antes, uma laçada, que alguém deu primeiro.


Autora
Zélia Évora

Criativa

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Atlas: Os primeiros passos

O Atlas está de parabéns! Sinto-me honrada pelo convite para relatar os primeiros passos do Atlas há 14 anos. É com admiração que olho para a sua história.

Como e por que nasceu o Atlas? Dizem que “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” Para mim, o sonho começou quando acordei da anestesia. Foi num hospital, no recobro de uma cirurgia, que a minha amiga “Rusa” (Maria do Rosário) me falou da sua ideia. Depois de ter trabalhado em cooperação para o desenvolvimento, em Lisboa, sentia que em Coimbra faltava “animação”. A ideia central: promover a realização do potencial humano, especialmente onde as circunstâncias fossem adversas. A ideia germinou em mim, acabando por encontrar eco num certo vazio que eu não via preenchido pelos meus estudos na universidade. Decidi abraçar esta aventura.

A primeira sede no Atlas foi na Solum. Com móveis doados e decoração verde-alface e vermelha, abrimos as portas a Coimbra e ao mundo. Os primeiros passos eram claros: formar equipa, redigir os estatutos e obter a designação de Organização Não Governamental, estabelecer contactos na área, delinear as nossas primeiras aventuras e escrever candidaturas. Os eixos de acção mantêm-se fortes desde o início: a cooperação para o desenvolvimento, a educação para o desenvolvimento (os objetivos do Milénio), e o desenvolvimento local. Muitos entusiastas juntaram-se e contribuíram das mais variadas formas. O Filipe Bento emprestou o seu talento de designer para criar o sorriso do nosso logotipo. Os MotoXplorers fizeram raids de mota solidários. A Helena Vasconcelos visitou o orfanato angolano onde muitas crianças foram apadrinhadas e conquistaram corações além-mar. A Jovana, especialista em relações internacionais, promoveu a construção da rede de contatos. E tantos mais foram os contributos que se multiplicaram e construíram o Atlas. O Atlas é movido por pessoas extremamente ocupadas mas, como disse a Cândida numa das primeiras assembleias gerais (parafraseando a citação do seu avô): “se queres algo bem feito, fá-lo tu ou entrega-lo a alguém com muito que fazer”.

E, claro, não podíamos deixar de ir para fora cá dentro. Queríamos criar laços na cidade natal do Atlas. Os primeiros contactos com a vereadora da Câmara Municipal de Coimbra foram produtivos – aprendemos que, na Alta de Coimbra, os apoios sociais não tinham alcance para as necessidades de muitas pessoas, especialmente ao fim de semana. Não foi difícil encontrar restaurantes que nos apoiassem e ainda mais expedito foi o crescimento do corpo de voluntários. As amizades deste projeto, inicialmente intitulado “Alta de Coimbra” expandiram-se e fortaleceram-se, chegando a outras cidades no que hoje é o projeto “Velhos Amigos”.

Motivos profissionais levaram-me a outras paragens mas o Atlas continuou a crescer sobre outra direção. Agora na sua adolescência, está mais enérgico do que nunca e à minha memória da sua infância faltam os detalhes. Nítida permanece a noção de determinação e compromisso com que os projetos continuam e a força dos laços duradouros e sorrisos que criam.

O Atlas está de parabéns e, com ele, todos os idealistas e incansáveis heróis do quotidiano que dão a sua vontade, tempo e energia a tanta gente. Com um profundo sentimento de gratidão, desejo uma longa vida ao Atlas, muita força a todos, que os apoios e financiamento continuem a existir, e, sobretudo, que disfrutemos de cada momento!

Autora
Ana Pina

Vogal e sócia co-fundadora do Atlas. Nascida no Porto há 35 anos, estudou e viveu em Coimbra e em Lisboa. Trabalha atualmente em Freiburg como dermatopatologista.

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Comunicação com o idoso

Comunicar com “a pessoa idosa” não é muito diferente de comunicar com “a pessoa jovem”.

Apesar de ser inegável que, com o avançar da idade, ocorrem alterações ao nível sensorial e motor que podem comprometer a eficácia da comunicação, a população idosa está longe de ser homogénea.

De entre as alterações mais frequentes causadas pelo envelhecimento, podem assinalar-se a diminuição da acuidade auditiva e visual, a diminuição da força muscular, as alterações da função respiratória, a perda de dentes e as alterações na memória e na atenção, como potenciais fatores de comprometimento da eficácia da comunicação. Contudo, cada pessoa envelhece de maneira singular e o pior erro é generalizar.

Assim, assumir que comunicar com uma pessoa idosa será, à partida, mais difícil, baseando-se apenas no fator idade, constitui um preconceito, que é importante desconstruir. A este tipo de preconceito, baseado na idade, chamamos idadismo (=ageism,na língua inglesa; para saber mais: stopidadismo.pt) e está mais presente na nossa cultura do que gostaríamos.

De facto, a comunicação, em qualquer que seja a idade, é um processo complexo, que exige um verdadeiro envolvimento entre os interlocutores.

É comum pensar-se que o aspeto mais importante da comunicação é a mensagem verbal (as palavras). Contudo, é seguro dizer que a essência da comunicação é revelada pela componente não-verbal da linguagem. Isto é, a mensagem que transmitimos é mais influenciada pela nossa postura corporal, pelos gestos, pelo contacto visual, ou pela sua ausência, pelo tom de voz que usamos e pela disponibilidade que demonstramos, do que pelas palavras que escolhemos.

Outra premissa comum e não menos errada é a de que comunicar significa falar. Em todo o processo de comunicação, escutar pode ser tão ou mais importante do que falar. Neste sentido, em muitas situações, comunicar eficazmente pode passar, sobretudo, por “estar presente” e escutar ativamente.

Assim, parece que a chave para uma comunicação eficaz reside, principalmente, na relação que se estabelece e na empatia que se tem para com o outro. A mesma empatia que permite estar atento a si e ao outro, às necessidades de ambos e às suas capacidades. Esta comunicação “centrada na pessoa” será tão mais eficaz, quanto maior a entrega e o envolvimento dos interlocutores.

No decorrer dos nossos dias, nem sempre é fácil dedicar todo este empenho a cada oportunidade comunicativa. Contudo, vale a pena tentar!

Autora
Joana Santos

Terapeuta da Fala, com mestrado na mesma área e especializações em perturbações neurológicas no adulto, ao nível da comunicação e da deglutição. Atualmente, exerce a sua profissão no Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital da Universidade de Coimbra e é estudante do curso de doutoramento em Gerontologia e Geriatria da Universidade de Aveiro e do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto.

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Atlas 2021 : um balanço e muitos agradecimentos

O ano de 2021, após dois anos do início da pandemia, foi ainda um ano de sorrisos tapados por máscaras, de álcool gel abundante e de contactos distanciados a que a COVID nos obrigou. Mas não foi um ano parco de afetos, nem de energia para continuar na senda das nossas causas.

 Ao longo do ano contámos com a ação e compromisso de 345 voluntários/as, que levaram um total de 7014 refeições quentes e nutritivas, confecionadas e cedidas por 70 Restaurantes Solidários e pelos próprios voluntários, quando tal foi necessário. Assim, todos os sábados do ano, os 83 beneficiários dos VELHOS AMIGOS tiveram refeições quentes e afeto e alguns minutos de conversa.

Foi ampliada a área de intervenção dos “Velhos Amigos” para um novo território: Batalha. Neste Município imerso em História e solidariedade, conhecemos 2 “Velhos Amigos” e 8 voluntários determinados a fazer a diferença.

A Inovação Tecnológica, a nova roupagem no Projeto Velhos Amigos , num cofinanciamento do programa POISE, numa iniciativa Portugal Inovação Social, continuou a aproximar os idosos da tecnologia, por via da atribuição de um dispositivo de georreferenciação e de uma plataforma de treino cognitivo e socialização. O financiamento permitiu a aquisição dos equipamentos, a contratualização de um serviço de teleassistência e de internet que se destinam a 90 idosos/as com vivência em isolamento social e vulnerabilidade económica.

No Projeto Escolas Solidárias, manteve-se a parceria da ATLAS com os dois Agrupamentos de Escolas da Marinha Grande e foram entregues, ao longo do ano de 2021, 202 cabazes, compostos por artigos alimentares e bens de higiene.

O ano de 2021 foi intensamente marcado pelas intervenções nas condições habitacionais dos idosos apoiados pela ATLAS, com o Projeto Amigos em Casa, um Prémio da Candidatura VINCI, que pretende fazer a recuperação de espaçoshabitacionais degradados ou inacabados de idosos que vivem em situação de Isolamento Social e Carência Económica, através da mobilização da sociedade civil, entidades privadas e públicas.

A nível organizacional, com o apoio da Fidelidade Comunidade, consolidámos o investimento iniciado em 2019, na comunicação interna e externa a ATLAS, com grafismos e logótipos, um website renovado, o envio de uma Newsletter mensal para os voluntários e trimestral para os parceiros, bem como uma loja online. Foi ainda elaborado o Plano Estratégico da ATLAS 2021-2024 , o Manual de Funções e o Modelo de Avaliação de Impacto..

Em 2021 foram produzidos e partilhados 43 artigos, graças a variados contributos, nomeadamente os abaixo designados, a quem a ATLAS agradece:

  • Ana Rita Vieira
  • Carolina Antunes
  • Catarina Fortunato
  • Celina Gameiro
  • Cidália Carvalheiro
  • Cláudia Marinho
  • Deolinda Ferreira
  • Elisabeth Guerra
  • Fernanda Castela
  • Helena de Jesus
  • Helena Vasconcelos
  • Hélia Amado
  • Irene Primitivo
  • Isabel Guimarães
  • Joana Caetano
  • Maria Fernanda Alegre
  • Maria João Santos
  • Nicole Bohórquez
  • Rui Bingre
  • Rui Lopes
  • Sílvia Marquês
  • Sofia Carruço

Encerrámos 2021 com alguns desafios na gestão de Recursos Humanos da Atlas, mas com uma enorme expetativa no ano de 2022 para prosseguir com as nossas causas.

Obrigada a todos/as por fazerem crescer a ATLAS.

Autor
Irene Primitivo

Voluntária da ATLAS. 

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“Uma leitura, uma partilha de opinião”

Este é um espaço de partilha entre voluntários e voluntárias da ATLAS. Aqui descobrimos o que andam a ler, quais as suas reflexões e sentimentos. Estão todos e todas convidadas a deixar comentários ao artigo no fim desta página!

A longa caminhada, Slavomir Rawicz

Estalou uma guerra aqui há dias. Uma guerra mesmo. A Rússia invadiu a vizinha Ucrânia. Esta é a nossa nova realidade, quer queiramos quer não. É claro que não queremos porque os que sofrem as consequências das guerras são os que nada têm que ver com elas: jovens, idosos, mulheres, crianças… Espero que se escreva pouco sobre esta guerra. Seria um bom sinal. 

Já a história da Longa Caminhada passa-se noutra guerra: Numa Grande Guerra: a da Segunda Guerra Mundial. Centra-se na divisão da Polónia entre a Alemanha e a então URSS e a captura de um oficial polaco pelo exército vermelho em 1939. Após a sua captura terá de passar por várias sessões de tortura, às quais resistiu, apesar de ser sempre persuadido pelo exército russo a fazer-se de culpado, assinando todos os papéis que lhe eram apresentados. Recusou sempre apesar das sessões de tortura, mas a certa altura apresentaram-lhe um papel assinado que o culpabilizou e que o condenou a 25 anos de trabalhos forçados. Slavomir Rawicz achou que sempre seria melhor do que uma cela.

A primeira viagem fez-se de comboio, pela linha transiberiana em condições infelizmente já muito retratadas em filmes como A Vida é Bela ou A Lista de Schindler. Os prisioneiros passageiros iam completamente colados entre si, quase sem poder respirar. Não tinham como aliviar-se, a não ser ali mesmo. Gritavam por água e muitos desmaiavam.

Depois do comboio seguiu-se o camião que rasgava por entre a neve.

Nos campos, os guardas aguardavam qualquer possibilidade de fuga para atirar a matar, mas foi isso mesmo que Rawicz e um grupo de seis tratou de organizar. Conseguiram fugir um ano após a sua captura, levando consigo pouco mais do que a sua roupa e a certeza de que não estariam em segurança enquanto estivessem em território russo. Rumaram à Índia britânica, mas tiveram de enfrentar as regiões inóspitas do Tibete e da Mongólia.

A caminhada foi feita em condições adversas. Foi longa e árdua e só a esperança e também o desespero os acompanhavam. Na Mongólia enfrentaram uma praga de gafanhotos. No Tibete montanhoso e gelado perderam um dos companheiros, o lituano.

Só cinco chegaram à Índia. Viajar para eles era uma verdadeira obsessão. Caminhar só podia ter fim quando encontrassem segurança. Na índia, foram restituídos aos seus respetivos países de origem.

Esta é uma história de coragem e de determinação assim como de trabalho de equipa que serve de testemunho de um dos períodos mais marcantes da história.


Autor
Celina da Costa Gameiro

Voluntária ATLAS, no projeto Velhos Amigos em Pombal

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José Saramago, Todos os Nomes

Todos nós temos um nome. Um nome próprio. Um nome de família. Por vezes, uma alcunha, ou um nome ternurento trocado na intimidade. Também acontece haver nomes com estatuto: o senhor comendador, o senhor reitor, o senhor capitão ou o senhor conservador. Este último representa a grande teia urdida em volta de várias ligações que se estabelecem na Conservatória do Registo Civil. E é lá que se assentam todos os nomes: os dos vivos e os dos mortos. Nesta história havia um senhor José, mas não era o conservador. Era apenas um auxiliar de escrita, mas uma vez cometeu a proeza de se sentar no lugar do conservador, na sua cadeira, mas à noite, no escuro. O senhor José como auxiliar era aquele que apontava todos os nomes e o senhor conservador, sentado na sua cadeira, era aquele que não fazia nada e, por isso, era uma pessoa muito só. O senhor José, um dia, lembrou-se que haveria de descobrir todas as informações relacionadas com as pessoas famosas cujas vidas gostava de colecionar e iniciou um passatempo. Era um passatempo noturno. Durante o dia continuava auxiliar de escrita, mas durante a noite, pegava na chave velha, abria a porta que rangia e transformava-se num perspicaz investigador capaz de folhear, de abrir todo o tipo de gavetas proibidas, de sacudir a poeira a livros pouco arejados, descobrindo assim onde estão o registo dos vivos e os dos mortos. Para ele, a maior gulodice era poder penetrar na Conservatória e esventrar os livros porque o “que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca e é preciso andar muito para alcançar o que está perto.”

Mas nesta busca havia o medo. Por vezes o terror. E se fosse descoberto? E se o apanhassem com os livros nas mãos? Tinha medo da noite e do silêncio, mas ainda mais de qualquer ruído. Qualquer ruído podia fazê-lo saltar de uma cadeira. Também tinha vergonha e pesadelos, mas curiosamente sorria após os seus pesadelos.

Havia o caso de uma senhora que parecia ter ganho vida pelas palavras que 36 anos antes lhe tinham atribuído: “um nome, o nome dos pais, o nome do padrinho, a data e a hora do seu nascimento, a rua, o nº e o andar onde viu a primeira luz e sentiu a primeira dor, um princípio como toda a gente.”

E é assim que muita gente ganha vida, com as palavras dos outros, porque nós próprios demoramos muito a aprender e a conhecer as nossas próprias palavras.    


Autor
Celina da Costa Gameiro

Voluntária ATLAS, no projeto Velhos Amigos em Pombal

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De Coração Cheio

No Projeto Velhos Amigos, todos os sábados, acontece um momento mágico no qual se espalha Alegria e Amor. Quando acontece cada encontro, há saudações alegres que ecoam, olhos que se cruzam, refeições que se doam e um tempo que se entrega de forma desinteressada ao outro. No meio das rotinas diárias, das regras sanitárias que nos afastam já há tantos meses, o investimento Humano, a grande riqueza destes tempos é Escutar!  Esta é a grande arma de combate contra a solidão e a indiferença.

Este é o sentimento que vivenciamos pela Vila da Batalha, vamos e o mais importante, é Escutar. O testemunho de quem faz a magia, os nossos Voluntários nos Velhos Amigos na Batalha:

Sempre gostei de ajudar, quando recebi o convite para fazer parte do grupo de voluntários da Atlas fiquei muito agradecida. São 2 horas de companhia, partilha de experiências de vida, e ainda uma refeição quentinha para aconchegar os nossos amigos.

E, eu sou uma sortuda por fazer parte deste grupo solidário Atlas.”

Alexandrina Henriques

“Uma experiência fantástica, sempre foi algo que quis fazer, estou muito feliz por a Atlas me ter dado está oportunidade, com os nossos velhinhos tenho aprendido muito… adoro fazer isto…. adoro ajudar… estou de coração cheio… sinto muito orgulho no que faço! OBRIGADA ATLAS!”

Catarina Teixeira

“Ajudar os outros… Ir com o Coração Cheio. No fim ficas com o Coração a transbordar….”

João Toscano

“Seja qual for o caminho que tu escolhas para a tua vida, tens de arranjar sempre tempo de devolver, seja á tua comunidade, seja á tua freguesia ou até ao teu país!” Ajudar outras pessoas dá-me uma grande satisfação, muito mais satisfação que outra coisa supérflua eu possa fazer ou adquirir… Muito obrigado por me receberem na Atlas!”

Rolando de Jesus

Mas para mim a vida só faz sentido assim, saber que a minha presença pode fazer a diferença na vida destas pessoas. Levar um sorriso e trazer um coração cheio…”

 Susana Guerra


Autor
Elizabeth Guerra

Voluntária ATLAS. Coordenadora do Projeto Velhos Amigos na Batalha

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Solidão

“Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitámos tão pouco.”  Mia Couto

Eis-me aqui, na curva descendente da vida. Passos trôpegos, olho pela janela. O sol estende o seu manto alaranjado, até se esconder para lá do horizonte.

Deixo-me levar até onde a minha memória alcança. Eu pequenina, o mundo eram as ruas da minha aldeia. As estações do ano sucediam-se. Noites de verão em que se contavam estrelas, ouviam-se grilos, andava de bicicleta com a minha irmã, brincava no pátio da escola com as amigas e amigos e chapinhava nas poças da chuva. Lembro-me de procurar os braços da minha mãe nas noites de trovoada. Lembro-me da água gelada no tanque da roupa. Lembro-me, com saudade, da minha família, das pessoas que a vida trouxe e levou. Meu porto seguro. Cartas longas que se escreviam e raras chamadas telefónicas. Um passado cheio de gente, de afetos, dores e saudades.

Cheguei aqui. Pelo caminho houve de tudo. Vitórias, derrotas, aprendizagens. A voragem dos dias a apoderar-se de mim, de quem me rodeava. Planos de vida que se iam sucessivamente adiando. Um amanhã sempre a escapar-se entre os dedos. A família que me resta, telefona-me espaçadamente. Tempo, a eterna desculpa. Os amigos de uma vida foram ficando lá atrás. Os que ainda por cá andam, reféns dos seus passos, aparecem cada vez menos. Deixo de conhecer os meus vizinhos. Eles também não sabem quem eu sou. Talvez nem saibam que eu existo. A porta de minha casa já raramente se abre. A campainha está muda, já não anuncia a chegada de ninguém.

Os meus dias sucedem-se iguais. Tenho os meus gatos e os meus livros. Mas os meus olhos cansam-se rapidamente. Ligo a televisão e ali fico estática, esquecida, perdida no vazio. Recentemente algo começou a mudar. A esperança e a alegria começam a abrir caminho na minha vida. Há pessoas boas, empenhadas em dar algo de si, em derrotar a solidão de quem está só. De quem se sente só. A Dora procura saber como me sinto. Senta-se junto a mim e conversa. Conta como vai o mundo, fala de coisas do dia-a-dia. Fico feliz quando ela abre um livro e lê para mim. Fecho os olhos, deixo-me transportar.  Sinto o calor do sol a bater na minha janela, os gatos enroscados aos meus pés e, nestes momentos, tudo me faz sentido. Gratidão


Autor
Élia Vala

Mãe e avó. Assistente comercial numa instituição financeira. Gosta de pessoas, livros e natureza. Angustia-se com o sofrimento humano, em particular de crianças e idosos. Conhece o admirável trabalho da Atlas pela mão da sua amiga Dora Rodrigues. 

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