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Natal

Natal é por si só uma palavra mágica que nos transporta para a nossa infância, para cenários mágicos cheios de luz, odores e sabores. Que nos aguçam os 5 sentidos e que nos fazem entrar num Universo de paz e alegria que não tem paralelo com outras épocas do ano. É também uma altura de renovação, de gratidão e fraternidade, em que o outro entra na nossa vida como se lhe pertencesse, em que estamos mais receptivos e atentos aos que nos rodeiam de perto, bem como, aos que temos como mais vulneráveis e frágeis.

Natal é o que fazemos todo o ano aqui na Atlas, quando transportamos um pouco de nós para aqueles que nos parecem precisar mais. E é nesta dádiva pessoal que queremos continuar a fazer Natal sempre. Com menos luzes e aromas é certo, mas com o espírito de doação que nos caracteriza. 

É altura de agradecer a quem é voluntário nesta casa, a quem trabalha aqui, a quem é nosso parceiro e faz também as coisas acontecerem. É altura de agradecer às famílias dos nossos voluntários que sabem partilhar esta gente linda que tem lá em casa com os nossos beneficiários. 

A família Atlas celebra o Natal como vive o ano inteiro: centrada nos outros.

Vem aí um novo ano, que não se perspectiva fácil, mas que saberemos superar com a leveza e o entusiamo que nos caracteriza. Somos e seremos sempre um porto seguro para quem nos procura. Queremos e estamos a crescer, mas sem perder o melhor que temos, a partilha e a simplicidade. 

Feliz Natal para todos!


Autora
Helena Vasconcelos
Voluntária e Presidente da ATLAS

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Encontro ao Serão – Burnout

 “Sinto que preciso de parar, será que estou a entrar em Burnout?”  

Temos Encontro ao Serão marcado para dia 19 de novembro, às 21h00, em modo presencial, na Delegação da ATLAS na Marinha Grande.

Sente que vive numa constante correria e que a vida lhe está a passar ao lado?

Sente que precisava de “desligar a ficha”, por momentos, para poder recuperar energias? 

Então, junte-se a nós nesta conversa informal, sobre a importância de cuidarmos de nós próprios e de instalarmos microhábitos para evitarmos que a sobrecarga do dia-a-dia domine as nossas vidas.  

Na fase que atravessamos, mais do que nunca, precisamos de recuperar a tranquilidade e de aumentar a nossa realização pessoal e profissional!

Vamos falar de Burnout  com a nossa oradora convidada Catarina Fortunato, Médica Interna de Medicina Geral e Familiar  e Pós-Graduada em  Sexologia e Terapia de Casal. 

Quem quer passar o Serão connosco? 

Dia 19 de novembro de 2021, sexta feira 21h

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Quando Eu Morrer Vocês, Amigos Leitores, Serão Parte do Meu Futuro.

Sim, quando eu morrer o leitor ou leitora que me lê e partilha momentos de vida, como o voluntariado no Velhos Amigos, será o meu futuro… e refiro-me ao meu futuro aqui na Terra.

Tenho 67 anos. Há vinte anos, nas raríssimas vezes em que pensava na morte, tinha a certeza que quando chegasse a esta idade e as maleitas começassem a fazer parte do quotidiano, bastaria ir a uma estação de recarregamento de saúde, encostar a mão a um manípulo e em cinco minutos estaria recarregado para mais 67 anos de saúde… quiçá a eternidade!

Há dez anos já sabia que não seria assim. Não haveria recarregamentos até à eternidade, mas, com sorte e empenho de gente sabedora, um prolongamento do tempo de estada na Terra. Mas a vida acabaria. E com essa certeza, vieram a dúvida e as reflexões sobre o sentido da vida. Com a energia, a esperança e a capacidade de sonhar que ainda tinha aos 57 anos, pensei que a morte física seria o menor dos males se comparado com a eternidade cantada por Camões em “…aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando…”. Nesses meus últimos laivos de ingenuidade, pensei que se conseguisse realizar uma “obra valerosa”, quiçá um livro, um dia deixaria fisicamente de existir, mas ficaria um legado que me libertaria da lei da morte.

Hoje, sei que não será assim. Como Camões, roguei inspiração às musas. Acredito que elas terão tentado arduamente inspirar-me, mas, ao contrário de Camões, não tiveram da minha parte a ajuda do engenho e arte. Confesso, aliás, que o meu engenho e arte não se comparará sequer ao de Jau, o mais fiel amigo de Camões, que cuidou do poeta nos últimos e difíceis anos de Camões.

E é assim que hoje, sem manípulos de carregamento de eternidade física, e sem engenho e arte, resta-me ser o Jau da minha vida. Não ficará obra feita, nem um legado que me libertará da lei da morte. Mas ficará a certeza de ter feito o melhor que soube e fui capaz com aqueles que amei e respeitei, família e amigos, pessoas boas que tive, e tenho, a felicidade de conhecer e partilhar a vida na Terra. E com esta certeza fica a esperança de, mesmo depois de ter deixado de existir fisicamente, a recordação que alguém possa ter de mim, traga-lhe um momento de saudade que, por pequena que seja, será o meu futuro depois do tempo que vivi na Terra. Sei que um dia também a família e os amigos deixarão de poder recordar-me. Como será, então, a eternidade em que pensei? Sinceramente, quando a última pessoa que partilhou a vida comigo, ou momentos da vida, abraçou-me e sorriu-me, não puder recordar-me, o que me interessará a eternidade?


Autor
Rui Bingre
Voluntário ATLAS no Projeto Velhos Amigos em Leiria.

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Voluntários do Atlas: Cada Um Como Parte de Um Todo Maior!

Este início de ano 2022 levou-me a revisitar a ATLAS: somos grandes em número (de beneficiários, voluntários, parceiros sociais, territórios de atuação) e em força de vontade para ser alavanca para o bem comum. 

Também neste início de ano entraram duas novas Técnicas na ATLAS, A Sara Dias e a Patrícia Silva, o que constitui “uma nova oportunidade para sermos melhores pessoas e crescermos com a ATLAS”, como reincidentemente ouvimos dizer à nossa voluntária Irene Primitivo. De facto, o Trabalho Técnico, nesta nossa Organização, é propulsor de nova atividade (como são exemplo as candidaturas e prémios ganhos pela ATLAS) e é unificador tanto da imagem da ATLAS refletida para o exterior, como da atuação nos vários projetos e do contributo dos vários intervenientes. 

Cada voluntário (elemento de equipa, coordenador de projeto, elemento dos órgãos sociais, entidade parceira) acresce valor à Organização e juntos exponenciamos o potencial do que pode ser feito, porque partilhamos dos mesmos Valores que definem a ATLAS: solidariedade, transparência, cooperação, compromisso e criatividade.

Em cada Missão ATLAS é claro o objetivo ao qual nos propomos (seja levar a refeição aos Velhos Amigos, entregar um cabaz alimentar a uma família carenciada, prestar apoio a um beneficiário, etc.), o que motiva o nosso envolvimento para com a causa solidária.

O que mais queremos fazer nas nossas comunidades? A quem mais queremos chegar?Revisito a ATLAS e vejo a vida que acrescenta à civitas, que, em latim, significa cidade, como espaço para o exercício da cidadania, para promover os direitos dos cidadãos (e para cuidar). A Atlas são pessoas empenhadas em cooperar para promover o bem-estar de outras pessoas: cada um como parte de um todo maior!


Autora
Sofia Carruço
Psicóloga e Voluntária na Atlas – People Like Us, em Leiria

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Patrícia

Conhecemos a Patrícia num fim de tarde, já lusco-fusco, e enquanto ela nos ia falando da sua experiência profissional e das suas expetativas com o ATLAS, a sala da sede de Leiria, iluminou-se. Ela encheu-nos de luz, de esperança e de entusiasmo.

Foi também isso que viram os voluntários que estiveram presentes no Encontro ao Serão do passado dia 19 de outubro, desta vez em modo presencial.

Demos as boas vindas à Patrícia Silva e ela deu-se a conhecer. Falou-nos em tom tranquilo, sem deixar de ser vibrante, do seu percurso profissional repleto de vivências na área da coordenação e gestão de projetos de voluntariado em Portugal e na Europa. Ficámos a saber que já correu mundo: da sua experiência pessoal, social e profissional de voluntariado em diferentes organizações, conheceu a Noruega, o Sudeste Asiático, a China, a Austrália e a Nova Zelândia. E conhecemos a sua veia empreendedora na área da produção de gelados artesanais e gestão de vendas, tendo mesmo implementado um projeto de empreendedorismo utilizando o gelado artesanal na promoção do desenvolvimento local. 

Nas palavras da Patrícia “a grandeza das coisas está na sua simplicidade. Quanto mais simples tornarmos os processos de trabalho e de realização pessoal mais acessíveis estes serão e como tal, mais possíveis de concretizar”. 

A Patrícia faz-nos acreditar ainda mais no Futuro do Atlas e faz-nos querer ser melhores. As suas competências, a sua experiência profissional e as suas vivências, em consonância com a Missão e os Valores do ATLAS, certamente hão-de criar alavancas para o crescimento do ATLAS.  

É nisto que acreditamos. Obrigada Patrícia por, também tu, teres escolhido o ATLAS. Bem-vinda!


Autora
Irene Primitivo
Voluntária ATLAS no Projeto Velhos Amigos em Leiria. Membro da Direcção.

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Encontro ao Serão no dia 19 de outubro

Aconteceu mais um Encontro ao Serão no dia 19 de outubro, na sede de Leiria. Finalmente conseguimos ter um momento de convívio presencial que aproveitámos para dar as boas vindas da Patrícia Silva ao ATLAS e dar conta dos novos projetos do ATLAS para 2021-2022. 

Estiveram presentes algumas dezenas de voluntários e não faltaram bolos, chá e café, que só foram servidos depois de ter sido cumprido o programa do evento.

Depois de ouvirmos a Patrícia falar de si e de percebemos que é uma profissional cheia de talento, criatividade, simplicidade e humanidade, apresentámos alguns dos projetos em curso no Atlas que, sumariamente, resumimos para quem não esteve presente:

Projeto financiado pelo Portugal 2020 que traz soluções de monitorização para promover a segurança, a saúde e o bem-estar dos idosos, com os dispositivos de georreferenciação, e os tablets que permitirão desenvolver atividades de estimulação cognitiva e manter uma rede de contactos; 

O Projeto Amigos em Casa, uma candidatura do Programa VINCI para a Cidadania em que se pretende melhorar as condições de habitabilidade das casas dos(as) idosos(as), contribuindo para um aumento do seu bem-estar, conforto e segurança;

Candidatura da Fidelidade que está a terminar e com a qual conseguimos ativar o merchandising da Atlas que já é visível com a newsletter, o novo site, os novos vídeos e a loja virtual do ATLAS;

Saco à Baixa– uma parceria do ATLAS que decorre na Baixa de Coimbra, em que se fomenta o cruzamento das artes manuais tradicionais associadas à mulher, – costura, bordado, crochet – com as práticas artísticas do Design, da Ilustração e da Serigrafia.

Freedomcrickets – uma parceria do ATLAS que conjuga a criação de uma unidade de trabalho no Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens (EPL-J), centrada na produção de insetos para alimentação animal e humana, com a criação e concretização de um programa holístico na preparação do regresso à liberdade de jovens em cumprimento de penas privativas da liberdade no EPL-J. 

Finalizámos o Encontro ao Serão com a esperança do retorno à normalidade com a Aldeia Solidária no Natal, o Arraial, a Gala com os Parceiros, as Festas do Bodo, as Festas da Cidade na Marinha Grande, a Feira de Leiria, o Chá das 5 e tantos outros encontros dos quais estamos todos tão saudosos!


Autora
Irene Primitivo
Voluntária ATLAS no Projeto Velhos Amigos em Leiria. Membro da Direcção.

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Ano 2021 na ATLAS: muitos desafios e uma enorme gratidão!

O ano de 2021 foi ainda um ano de sorrisos tapados por máscaras, de álcool gel abundante e de contactos distanciados a que a COVID nos obrigou. Mas não foi um ano parco de afetos, nem de energia para continuar na senda das nossas causas.

Neste ano de 2021 a ATLAS – People like us , alargou o âmbito do seu Projeto Velhos Amigos para mais uma cidade da Região Centro. Está agora em 6 cidades: Coimbra, Leira, Marinha Grande, Pombal, Alcobaça e Batalha.

Em 2021 foram executados projectos de candidaturas que ainda estão a decorrer, à exceção da Fidelidade , que terminou em dezembro de 2021.

No âmbito do Prémio Fidelidade Comunidade, a ATLAS reuniu fundos para a criação de peças de comunicação para divulgação da ATLAS e através de um serviço de consultoria definiu o seu Plano Estratégico 2021-2024, criou um Modelo de Avaliação de Impacto e elaborou o Manual de Funções da ATLAS, com vista a garantir a sustentabilidade e crescimento. Mostra-se agora aos parceiros da ATLAS elementos de design e comunicação criados com o objectivo principal de aumentar a visibilidade online desta associação.

No âmbito do programa POISE, numa iniciativa Portugal Inovação Social, iniciado em 2020, continuou-se a aproximar os idosos da tecnologia, por via da atribuição de um dispositivo de georreferenciação e de uma plataforma de treino cognitivo e socialização. O financiamento permitiu a aquisição dos equipamentos, a contratualização de um serviço de teleassistência e de internet que se destinam a 90 idosos/as com vivência em isolamento social e vulnerabilidade económica.

No âmbito da candidatura do Programa VINCI para a Cidadania intitulada “Amigos em Casa”, estão a recuperar-se espaços habitacionais degradados ou inacabados, desenhando casas amigas dos idosos, funcionais e seguras, que concedam melhores condições de habitabilidade.

Terminámos o ano de 2021 ajustando-nos às mudanças internas ocorridas na ATLAS, que nos obrigaram a desafios de trabalho em rede e colaborativo, mas sempre com a energia para prosseguir o trabalho em prol dos nossos beneficiários. O que só conseguimos graças ao contributo dos Restaurantes Solidários e de todos os Mecenas e Amigos da Atlas.

A todos a nossa enorme gratidão!


Autora
Irene Primitivo
Voluntária na Atlas – People Like Us, em Leiria

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Uma leitura, uma partilha de opinião.

“Uma leitura, uma partilha de opinião” é um espaço de partilha entre voluntários e voluntárias da ATLAS. Aqui descobrimos o que andam a ler, quais as suas reflexões e sentimentos. Estão todos e todas convidadas a deixar comentários ao artigo no fim desta página!


Memórias inesquecíveis

Comentário de Celina Gameiro

Residente em S. Simão de Litém, concelho de Pombal. Licenciada em Línguas e Literaturas modernas, variante de estudos franceses e ingleses, pela FLUC. Ouvinte e observadora. Voluntária na Atlas, no projeto Velhos Amigos.


Lembrei-me do meu avô. Podia ter sido por acaso, por qualquer razão, mas foi porque o autor Gao Xingjian tem uma colectânea de contos intitulada Uma cana de pesca para o meu avô. Este é o nome da colectânea e também de um dos contos incorporados. Talvez o mais bonito.

Não é uma ode fantástica. É apenas uma história muito simples de um neto que passou numa loja de artigos de pesca e viu uma cana e lembrou-se do avô. De repente quis oferecer-lhe uma. O avô gostava de pescar e usava exclusivamente canas feitas de bambu, o que há aos pontapés na China, e o neto queria mostrar-lhe um modelo mais moderno e menos artesanal.

O avô é que fazia as suas canas, não eram daquelas que se encaixavam umas nas outras até caberem no último tubinho, facilitando o transporte. Eram de bambu curvado e aquecido até ganharem a cor e a forma apropriadas. Só os carretos e os anzóis é que vinham da cidade. O petiz, já não tão petiz, resolve visitar esse espaço da sua infância onde vivia o avô e achou tão estranha a transformação que o tempo trouxe que já nem sabia onde ficava. Onde havia casas pequenas e ribeiros passou a haver prédios e estradas. Tudo muito homogéneo. As casa todas iguais umas às outras. A paisagem tinha-se alterado completamente.

Quando visito esse altar da minha infância que era a casa do meu avô, onde todos nos reuníamos, vejo que lhe falta a vida e o pulsar de antigamente.

A estrutura ainda se mantem. O pátio também, com as lajes de mármore encaixadas umas nas outras, mas o tempo trouxe uma manta negra que as vai cobrindo e trouxe o silêncio. Mesmo assim, consigo ouvir ruídos quando lá vou. Ouço os passos das corridas da nossa infância, até daquela onde parti um braço. Ouço o baloiço com a fila das primas à espera da sua vez. Ouço as risadas das irmãs à conversa umas com as outras enquanto preparavam os tortulhos. Ouço o aparelho do meu avô a ajustar-se. Ouço os meus tios a desafiarem-se num jogo de sueca. Ouço os pratos que se alinham pela mesa comprida. Ouço os talheres contados a preceito e sem preconceito para quem chega. Ouço os jogos sem fronteiras na televisão sempre com a energia embelezada da figura do Eládio Clímaco. Ouço as mãos que cortam o pão caseiro. Ouço e cheiro os assados que saem do forno a lenha. Lenha de oliveira. Ouço alguém que levanta o moal, mais num registo de brincadeira que já havia debulhadora. O moal era para coisa pouca. Vejo sorrisos estampados, brilhantes e genuínos. Éramos muitos. Éramos meninos.

As memórias e as vivências são tudo o que nos resta.

Uma cana de pesca para o meu avô
de Gao Xingjian

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Uma leitura, uma partilha de opinião.

“Uma leitura, uma partilha de opinião” é um espaço de partilha entre voluntários e voluntárias da ATLAS. Aqui descobrimos o que andam a ler, quais as suas reflexões e sentimentos. Estão todos e todas convidadas a deixar comentários ao artigo no fim desta página!


De nada na mão

Comentário de Celina Gameiro

Residente em S. Simão de Litém, concelho de Pombal. Licenciada em Línguas e Literaturas modernas, variante de estudos franceses e ingleses, pela FLUC. Ouvinte e observadora. Voluntária na Atlas, no projeto Velhos Amigos.

Isabel Allende, autora de inúmeros romances, é uma emigrante chilena, residente na Califórnia, nos Estados Unidos da América. A influência que o seu país de origem teve nela e a referência ao mesmo aparecem na maior parte das suas obras.

O meu país inventado é uma viagem por esse país de muitos contrastes e nessa viagem conseguimos cheirar e saborear a nostalgia e o amor à pátria que qualquer emigrante carrega na sua mala.

Logo no início a autora fala-nos dos contrastes geográficos do Chile: as florestas densas do sul regadas com chuvas torrenciais (que muitas vezes cobrem as povoações nas redondezas e que têm vindo a ser ameaçadas pelas indústrias madeireiras), as serras nevadas da Cordilheira dos Andes (que fazem o Chile voltar as costas ao continente latino-americano), o pacífico adormecido (que banha o país e lhe lava a cara) e no norte o deserto de Atacama que ataca ferozmente quem quer que se aventure a atravessá-lo.

Isabel atravessou-o na primeira vez que saiu do Chile em direção à Bolívia. Vencia a sede a chupar laranjas e a beber água por galões. Fiquei a saber que o Chile possui um troço do continente antártico “um mundo de gelo e solidão… onde nascem as fábulas e perecem os homens”.  A ilha da Páscoa também pertence ao Chile, chama-se Rapanui em pascoense. Assim como a ilha de Juan Fernández, onde foi abandonado um marinheiro escocês que sobreviveu na ilha, que acabou por motivar a história de Daniel Defoe ”Robinson Crusoe”.

Quando se emigra, ou quando se sai do país durante algum tempo, o que nos vem à ideia é a comida: os sabores e as lembranças associadas aos sabores, seja a presença da família ou a piadola chanfrada de algum amigo.

Isabel fala-nos com algum detalhe de alguns pratos típicos chilenos: o manjar-branco ou doce de leite (parecido com o nosso arroz-doce, só que sem arroz), as empanadas (pastéis de carne e cebola), a cazuela (uma sopa de carne, milho, batata e legumes) e chupe de mariscos (um guisado aromático de mariscos). Quantos portugueses levaram na mala o famoso bacalhau, ou algum chouriço?

Houve um acontecimento que levou a autora a fazer as malas, de vez, do seu país de origem. Foi o Golpe Militar a 11 de setembro de 1973 liderando pelo general Augusto Pinochet. Foi um acontecimento de natureza política que fez mergulhar o país numa ditadura militar durante 17 anos. Isabel que era prima do anterior governante, Salvador Allende, teve de fugir para não ser perseguida ou sofrer represálias do governo. Mas como há males que vêm por bem ganhou a distância necessária para se tornar escritora, para se corresponder com o seu avô Agustín, o seu comparsa, com quem viveu na infância, e para encontrar aquele que viria a ser o seu companheiro na Califórnia: Willie.

O meu país inventado
de Isabel Allende

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Uma leitura, uma partilha de opinião.

“Uma leitura, uma partilha de opinião” é um espaço de partilha entre voluntários e voluntárias da ATLAS. Aqui descobrimos o que andam a ler, quais as suas reflexões e sentimentos. Estão todos e todas convidadas a deixar comentários ao artigo no fim desta página!


Unidos vencemos, separados caímos

Comentário de Celina Gameiro

Voluntária na Atlas, no projeto Velhos Amigos. Residente em S. Simão de Litém, concelho de Pombal.  Licenciada em Línguas e Literaturas modernas, variante de estudos franceses
e ingleses, pela FLUC. Ouvinte e observadora. 

Desta vez a leitura fez-me sair de Portugal e andar um pouco pelo mundo. Consegui-o através de Jhumpa Lahiri, uma escritora e contista com ascendência indiana, nascida em Londres e residente em Nova Iorque.

Do seu livro de contos “Intérprete de enfermidades”, o que mais me marcou foi o conto “Quando o senhor Pizarda vinha para jantar”. Gostei deste conto pela temática em si: do exílio, da imigração, dos refugiados, não da Síria ou do norte de África, mas do Paquistão. Mas gostei sobretudo do facto de o narrador ser uma criança.

Os olhos das crianças são sempre diferentes dos adultos
e não entendem as separações.

Para elas o mundo seria uma festa onde todos viveriam de mãos dadas. O senhor Pizarda era um professor assistente numa universidade, em Dacca, marido e pai de sete filhas. Foi-lhe atribuída uma bolsa de estudo para viajar até Nova Iorque e investigar o tipo de folhagem de Nova Inglaterra. A bolsa não era lá muito avultada pelo que ele tinha de viver numa residência de estudantes. Os pais de Lília, oriundos da Índia, tinham conhecimentos de gente ligada à universidade e viram no senhor Pizarda uma forma de conviver com um compatriota. Para o senhor Pizarda era uma forma de ter um jantar agradável, de ver o noticiário e de ter notícias da sua terra e família.

À pequena Lília bastavam-lhe os rebuçados que ele trazia no bolso. Só isso já fazia a companhia do senhor Pizarda valer a pena. Houve uma noite em que o senhor não foi. O pai de Lília comunicou-lhe que ele já não era indiano. Que o país se dividira. Que ele pertencia à parte muçulmana. O pai explicou à pequena que durante esta divisão ambas as partes soltavam fogo à casa uns dos outros e que não concebiam sequer viverem na mesma região, quanto mais partilharem uma refeição.  A pequena não entendia esta divisão. Se as pessoas falavam a mesma língua, riam das mesmas piadolas, tinham hábitos semelhantes e até se pareciam uns com os outros porque haveriam de se maltratar e excluir? Na noite seguinte o senhor Pizarda voltou para jantar, apesar das diferenças, apesar dos acontecimentos, apesar de ser um refugiado paquistanês em casa de indianos. Mas foi bem recebido e mimou, como de costume, a miúda com doces. A pequena que nem sabia se ele se ofenderia se fosse tratado de indiano, acabou por ter o melhor exemplo da sua família: o saber acolher, o não preconceito, o saber discutir sobre temáticas e assuntos com respeito pela opinião do outro, que pode perfeitamente ser diferente da nossa. O senhor Pirzada acabou por ter de regressar a casa, a Dacca. Não voltou mais para jantar. Deixou um lugar vazio, mas muitas recordações e a pequena percebeu o que era sentir a falta de alguém, a saudade. Quando os relacionamentos são bons e há aceitação e amizade, quando a pessoa parte, fica a saudade.

Os pequenos gestos, até o simples levantar de um copo permanecem gravados na nossa mente e também no coração. Às vezes, é preciso fazer um grande esforço para aceitar e até perceber a forma de vida das outras pessoas que podem ser tão diferentes da nossa. Mas, na maior parte das vezes, vale a pena!

Intérprete de Enfermidade
de Jhumpa Lahiri

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